domingo, 30 de março de 2008

2 + 2 = 5 ???

Qual é a escola ideal? De que maneira o ensino escolar pode colaborar com a formação de cidadãos ou seres humanistas? Como as instituições de ensino poderiam resistir aos problemas estruturais de um país?

Não existe uma escola ideal. Há instituições comprometidas com a formação humana a partir de inúmeros modelos. Neste caso, não importa se as idéias e métodos vêm de Paulo Freire ou Maria Montessori. Pouco vale também se as tendências pedagógicas sejam tecnicistas, marxistas ou antroposóficas (Waldorf).

Uma escola funciona, entre outras características, quando caminha alicerçada em planejamento, em todos os níveis. Tal trajetória implica também em políticas públicas de longo prazo, que envolvam todos os atores sociais.

Na última semana, dois fatos colocaram a escola contra a parede e expuseram o amadorismo e a falta de compromisso dos gestores com a educação pública (desculpem-me por frisar a redundância!).

O governo de São Paulo divulgou os dados do Saresp, instrumento de avaliação estadual. Sete em cada dez estudantes não sabem resolver operações matemáticas básicas. E eles estão no último ano do Ensino Médio, na vitrine do vestibular. De cada 100 alunos, 95 não possuem conhecimentos adequados da disciplina na rede estadual. Em declaração ao Universo On Line (UOL), a secretária estadual de educação, Maria Helena de Castro, afirmou que “os alunos não têm domínio das quatro operações, nem sabem aritmética.”

Na 8. série, metade não atingiu o conhecimento básico da disciplina, conforme os parâmetros estabelecidos pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A situação é caótica também no quesito leitura, com dados um pouquinho melhores, mas sem abandonar o fundo do buraco.

O outro caso envolveu a EMEF Isabel Vieira Ferreira, no Parque da Primavera, zona sul de São Paulo. Com ares de peça ficcional, a história começa com a ausência de trancas no portão principal da unidade às sextas-feiras à noite. Na rua em frente, um baile funk, patrocinado pelos traficantes do bairro, que levam “caixinha” até dos ambulantes, espécie de alvará de funcionamento.

O papel da escola é fornecer suas instalações a serviço dos clientes. A quadra de esportes, por exemplo, é conhecida como “transódromo”. Precisa explicar? O local tinha três funções: motel, banheiro e ponto de consumo de drogas. A Polícia Militar aparecia de vez em quando para depois de se retirar por causa de outros afazeres mal explicados. É o código para o baile “bombar”. A subprefeitura de Cidade Ademar, que engloba o Parque da Primavera, dizia que o problema era da alçada policial. O espaço escolar é administrado por quem, cara-pálida?

Depois de reportagem do Jornal da Tarde, o circo. No comando, o prefeito Gilberto Kassab (DEM) que, como um xerife de olho na urna eletrônica, anunciou uma força tarefa (não lembra uma guerra?) para resolver o problema. Na concepção do prefeito, o problema era o baile funk, temporariamente extinto, e não os organizadores do evento.

A macro-educação – retratada no Saresp – e a micro-educação – uma escola do município de São Paulo – se unem no sentido de representar, em primeiro lugar, a falta de planejamento do Poder Público. Não se pensa no amanhã. Todas as medidas têm prazo de validade definido: quatro anos. Será que as Secretarias estaduais de Educação, as redes municipais e a própria pasta do Governo Federal – independente do partido político de quem os comanda – não conseguem enxergar que a trajetória de um indivíduo na escola é muito maior do que prazos eleitorais e, também por isso, teriam que pensar a educação como processo contínuo?

No caso do Saresp, a secretária estadual reconheceu que o problema, de longa data, foi negligenciado por gestões anteriores. Lembrada de que o partido dela, PSDB, governa o Estado há 15 anos, desconversou.

Além da ausência de políticas públicas consistentes, o que se vê é uma escola desconectada com a realidade social onde está inserida. Não há relação com o entorno dos muros e grades do presídio escolar. Os moradores nas cercanias e os pais de alunos, via de regra, pouco participam ou interferem nas decisões educacionais. A palavra comunidade é usada por leviandade ou maledicência.

Outro fator é que as instituições de ensino pagam o preço da crônica falta de infra-estrutura nas periferias brasileiras. A escola, que poderia ser um centro de convergência cultural, se vê isolada diante de grupos que se transformam em governo dentro do governo. Qualquer unidade de ensino pouco pode se defender, por exemplo, da inoperância do sistema de segurança pública. O clima de violência interfere, direta ou indiretamente, no processo pedagógico.
Na história da EMEF Isabel Vieira Ferreira, foi mais fácil para o prefeito – com apoio da polícia – acabar com o baile funk do que ter pensado em medidas para melhorar as condições de vida do bairro. Era a única opção de lazer para os jovens do Parque da Primavera, que só tem parque no nome.

Para a Secretaria Estadual de Educação, a resposta urgente foi premiação em dinheiro – não é aumento de salário – para os professores das escolas com bom desempenho.

É a educação a conta-gotas, com respostas paliativas para problemas pontuais. As variáveis estruturais, crônicas e perenes, foram excluídas da equação e, desta forma, a conta não fecha. No próximo mecanismo de avaliação, certamente usaremos a palavra desastre, cirurgicamente dita sem compromisso por um ex-presidente sociólogo ao comentar o cenário brasileiro nesta área.

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