domingo, 30 de março de 2008

2 + 2 = 5 ???

Qual é a escola ideal? De que maneira o ensino escolar pode colaborar com a formação de cidadãos ou seres humanistas? Como as instituições de ensino poderiam resistir aos problemas estruturais de um país?

Não existe uma escola ideal. Há instituições comprometidas com a formação humana a partir de inúmeros modelos. Neste caso, não importa se as idéias e métodos vêm de Paulo Freire ou Maria Montessori. Pouco vale também se as tendências pedagógicas sejam tecnicistas, marxistas ou antroposóficas (Waldorf).

Uma escola funciona, entre outras características, quando caminha alicerçada em planejamento, em todos os níveis. Tal trajetória implica também em políticas públicas de longo prazo, que envolvam todos os atores sociais.

Na última semana, dois fatos colocaram a escola contra a parede e expuseram o amadorismo e a falta de compromisso dos gestores com a educação pública (desculpem-me por frisar a redundância!).

O governo de São Paulo divulgou os dados do Saresp, instrumento de avaliação estadual. Sete em cada dez estudantes não sabem resolver operações matemáticas básicas. E eles estão no último ano do Ensino Médio, na vitrine do vestibular. De cada 100 alunos, 95 não possuem conhecimentos adequados da disciplina na rede estadual. Em declaração ao Universo On Line (UOL), a secretária estadual de educação, Maria Helena de Castro, afirmou que “os alunos não têm domínio das quatro operações, nem sabem aritmética.”

Na 8. série, metade não atingiu o conhecimento básico da disciplina, conforme os parâmetros estabelecidos pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A situação é caótica também no quesito leitura, com dados um pouquinho melhores, mas sem abandonar o fundo do buraco.

O outro caso envolveu a EMEF Isabel Vieira Ferreira, no Parque da Primavera, zona sul de São Paulo. Com ares de peça ficcional, a história começa com a ausência de trancas no portão principal da unidade às sextas-feiras à noite. Na rua em frente, um baile funk, patrocinado pelos traficantes do bairro, que levam “caixinha” até dos ambulantes, espécie de alvará de funcionamento.

O papel da escola é fornecer suas instalações a serviço dos clientes. A quadra de esportes, por exemplo, é conhecida como “transódromo”. Precisa explicar? O local tinha três funções: motel, banheiro e ponto de consumo de drogas. A Polícia Militar aparecia de vez em quando para depois de se retirar por causa de outros afazeres mal explicados. É o código para o baile “bombar”. A subprefeitura de Cidade Ademar, que engloba o Parque da Primavera, dizia que o problema era da alçada policial. O espaço escolar é administrado por quem, cara-pálida?

Depois de reportagem do Jornal da Tarde, o circo. No comando, o prefeito Gilberto Kassab (DEM) que, como um xerife de olho na urna eletrônica, anunciou uma força tarefa (não lembra uma guerra?) para resolver o problema. Na concepção do prefeito, o problema era o baile funk, temporariamente extinto, e não os organizadores do evento.

A macro-educação – retratada no Saresp – e a micro-educação – uma escola do município de São Paulo – se unem no sentido de representar, em primeiro lugar, a falta de planejamento do Poder Público. Não se pensa no amanhã. Todas as medidas têm prazo de validade definido: quatro anos. Será que as Secretarias estaduais de Educação, as redes municipais e a própria pasta do Governo Federal – independente do partido político de quem os comanda – não conseguem enxergar que a trajetória de um indivíduo na escola é muito maior do que prazos eleitorais e, também por isso, teriam que pensar a educação como processo contínuo?

No caso do Saresp, a secretária estadual reconheceu que o problema, de longa data, foi negligenciado por gestões anteriores. Lembrada de que o partido dela, PSDB, governa o Estado há 15 anos, desconversou.

Além da ausência de políticas públicas consistentes, o que se vê é uma escola desconectada com a realidade social onde está inserida. Não há relação com o entorno dos muros e grades do presídio escolar. Os moradores nas cercanias e os pais de alunos, via de regra, pouco participam ou interferem nas decisões educacionais. A palavra comunidade é usada por leviandade ou maledicência.

Outro fator é que as instituições de ensino pagam o preço da crônica falta de infra-estrutura nas periferias brasileiras. A escola, que poderia ser um centro de convergência cultural, se vê isolada diante de grupos que se transformam em governo dentro do governo. Qualquer unidade de ensino pouco pode se defender, por exemplo, da inoperância do sistema de segurança pública. O clima de violência interfere, direta ou indiretamente, no processo pedagógico.
Na história da EMEF Isabel Vieira Ferreira, foi mais fácil para o prefeito – com apoio da polícia – acabar com o baile funk do que ter pensado em medidas para melhorar as condições de vida do bairro. Era a única opção de lazer para os jovens do Parque da Primavera, que só tem parque no nome.

Para a Secretaria Estadual de Educação, a resposta urgente foi premiação em dinheiro – não é aumento de salário – para os professores das escolas com bom desempenho.

É a educação a conta-gotas, com respostas paliativas para problemas pontuais. As variáveis estruturais, crônicas e perenes, foram excluídas da equação e, desta forma, a conta não fecha. No próximo mecanismo de avaliação, certamente usaremos a palavra desastre, cirurgicamente dita sem compromisso por um ex-presidente sociólogo ao comentar o cenário brasileiro nesta área.

segunda-feira, 24 de março de 2008

João, a única vítima

PUBLICADO NO JORNAL A TRIBUNA, PÁG. A-11 (TRIBUNA LIVRE) , DIA 24 DE MARÇO DE 2008.

A vida do garoto virou do avesso. O menino João Victor, de oito anos, em questão de uma semana, se transformou numa mercadoria a ser explorada. Tornou-se um produto a ser consumido pela mídia e pelo sistema educacional, além das instituições obcecadas por dividendos políticos. O aluno, equivocadamente chamado de gênio, entre outros adjetivos, gerou discussões que raramente ultrapassam os limites da casca, da superficialidade.

O ponto não é debater a falácia do vestibular em muitas instituições privadas de ensino superior. É redundante observar que o viés mercadológico se mostra latente a partir do momento em que o governo brasileiro, sem importar a cor da camisa, optou por atender aos organismos internacionais pela quantidade de seres em sala de aula e negligenciou planos de longo prazo que visassem a qualidade do ensino. Outro ponto a ser descartado é a especulação em torno da inteligência dele. Se fosse superdotado, o que ele não é, João Victor deveria estar numa escola ou em um programa especial, jamais numa universidade.

O episódio do garoto merece um olhar diferenciado entre os universos público e privado, embora o caso demonstre uma clara fusão dos dois cenários. No campo privado, a história de João Victor indica, em primeira análise, a incapacidade de separar – no âmbito familiar – os papéis que cabem aos indivíduos.

O fato dos pais desejarem, com argumentos rasos como a freqüência em algumas disciplinas, a presença de João Victor num banco universitário nos remonta ao período medieval. Em outras palavras, momento em que crianças eram vistas como “adultos pequenos”, visão preponderante até fins do século XIX.

No entanto, tal perspectiva decorre da necessidade de obtenção de sucesso e/ou reconhecimento a qualquer custo. O que dizer de crianças – desconheço se é o caso do menino goiano – que possuem uma agenda atribulada e sofrem de estresse? São cursos de idiomas, modalidades esportivas, compromissos com a escola, tudo exatamente no plural. Muitos pais alegam que a hora de brincar também está prevista na rotina. Mas pode ser reconsiderada diante da criança morta de cansaço.

Além disso, a perspectiva dos pais de João Victor não é diferente de muitos adultos, que projetam os desejos pessoais mais profundos em seus rebentos. A terceirização de sonhos implica, em muitos casos, na incineração de etapas da vida, com o desprezo de rituais que significam a construção de um ser humano pleno. São pais que buscam transformar seus filhos em celebridades instantâneas, como artistas-mirins e os Robinhos da próxima semana. Investem neles não para sejam seres humanos melhores, mas para que alcancem o sucesso profissional e a fama, seja lá o que isso significa e quais dividendos gerar.

Essa postura se equivoca ao esquecer que a queda ou as oscilações naturais de rendimentos do ser humano – vamos dizer assim – são capazes de demolir aqueles que ainda se mostram frágeis em termos psicológicos, as crianças.

Somado a isso, pode-se observar com nitidez a exploração da insegurança e a instabilidade humana como tema da sala de estar em alguns programas de televisão. Os pais do garoto, crentes numa condição igualitária de debate, são arrastados para um turbilhão de opiniões de “especialistas”, ávidos por moralizar o comportamento dos pais em minutos de bate-boca. O mundo do espetáculo designa a eles o papel de réus, condenados por antecipação, inclusive com desconhecimento do processo.

Qual é o passado desta família? Por que o garoto foi matriculado no processo seletivo e na universidade? Quais orientações a família recebeu? E de quem? O que desejavam provar para si e para a sociedade? Na verdade, isso pouco importa. O fato é que os milhares de pais com seus milhares de joões precisam repensar seus papéis e, se necessário, procurar ajuda qualificada. No caso do João de Goiânia, deixem-no seguir a própria vida e ser somente um menino comum de oito anos de idade.

O açougue na TV

Será que a televisão cria valores? Ou apenas os potencializa? Os questionamentos são pragmáticos, partem da relação conflituosa entre a sociedade e quem veicula conteúdos de TV, mas geram a equivocada interpretação de que as emissoras podem se eximir de responsabilidade social.

A televisão brasileira, comercial desde a certidão de nascimento, é reprodutora da cultura para quem expõe suas idéias. E este comportamento natural serve para incriminá-la no momento em que exercita a hipocrisia. Mas jamais indicará que o conteúdo apenas responde aos anseios do público, velha muleta na qual se agarram apresentadores quando confrontados pelo péssimo material produzido ou por escorregões éticos.

O exercício de cinismo de programas de televisão pôde ser visto na semana passada, quando foi “comemorado” o Dia Internacional da Mulher. Sempre há espaço para as mensagens piegas e para os discursos moralistas, oportunistas e casuais.

Entretanto, a televisão – salvo honrosas exceções – reforça um dos valores mais nefastos da cultura brasileira. O machismo se reflete na forma como mulheres são transformadas e exploradas como mercadoria na programação.

Um exemplo são os programas de perguntas e respostas para celebridades de segundo time. Em um deles, apresentado por Gilberto Barros, os concorrentes respondiam a questões dentro de uma cabine de vidro, na qual o nível da água subia a partir de erros dos participantes. Os movimentos de câmera e os cortes na ilha de edição denotavam a relação de gênero. Enquanto o homem era focalizado em plano americano (pouco abaixo da linha da cintura), a mulher era gravada de baixo para cima, praticamente numa visão ginecológica.

Em programas de humor, o cinismo se manifesta na falsa exaltação da mulher como figura independente, a mesma que se transformará em alvo de brincadeiras de mau gosto e ofensas a partir da falta de inteligência e das características físicas. São sempre alvos de cobiça, realizam as fantasias sexuais masculinas e falam muito pouco, para não atrapalhar o andamento das ações que protagonizam em termos de imagem.

Até os programas femininos não conseguem acompanhar o discurso de igualdade e de emancipação feminina. Reproduzem o modelo Amélia, com conteúdos voltados para aquela dona-de-casa clássica, versão anos 50. Quando querem debater emancipação, entendem independência somente pelo ponto de vista do mercado de trabalho ou do comportamento sexual. No fundo, colaboram com a cristalização do machismo, perpetuando graus de submissão ao homem. A cama, mesa e o banho a serviço do marido trabalhador. Parece o velho filme publicitário de manteiga.

Por outro lado, é perceptível como isso se processa a partir de um elemento externo à televisão. Vivemos, atualmente, em uma sociedade obcecada pela imagem, seja no culto ao corpo, seja na exposição pública deste pelos filtros de mídia. Muitas mulheres realmente entendem que o caminho mais rápido para alcançar a fama – e o tal do sucesso – seria se sujeitar à transformação em produto, no qual o consumidor pode observá-la como numa prateleira de supermercado.

A televisão brasileira, infelizmente, passa distante do discurso idealizado para as mulheres. Avança lentamente, negociando pouco a pouco novos valores diante de um público igualmente avesso a choques morais. Isso assegura à mulher o papel de um pedaço de carne num cenário onde o consumidor escolhe pela marca, pela embalagem, tampouco pelo conteúdo.

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Observação: na semana retrasada, esta coluna abordou no artigo “Sexo, mentiras e videotape” a interferência da vida privada na carreira de políticos. No último dia 12, o governador de Nova Iorque, Eliot Spitzer, anunciou que renunciaria ao cargo após denúncias de ligações com redes de prostituição. A renúncia foi feita, como sempre, ao lado da esposa, de quem o governador espera o perdão. Curiosamente, Spitzer foi procurador-geral do Estado por oito anos e teve a gestão marcada pelo combate ao crime organizado, inclusive duas redes de prostituição, que resultou na prisão de 18 pessoas.

quarta-feira, 19 de março de 2008

O uniforme fashion

PUBLICADO NO JORNAL DA TARDE EM 19 DE MARÇO

A adolescência, que mescla origens biológicas e culturais, é uma fase difícil. O corpo é instável; o comportamento, inseguro; a necessidade de reconhecimento de grupo, vital. Trata-se de um período de alterações, de contestações de quem tenta se libertar de amarras e buscar a própria trajetória, diferenciando-se dos demais.

A busca pelo reconhecimento envolve também, numa sociedade de consumo que sonha com a padronização, a aparência. Neste sentido, o uniforme escolar é um dos grilhões mais cruéis para o cotidiano de um adolescente. Por mais que se vistam de maneira parecida, os adolescentes jamais aceitam que essa imposição venha de terceiros, ainda mais da escola.

Vale o que for preciso para quebrar as regras, desde modificações no corpo como piercings até outros acessórios da moda como bonés, casacos, calças rasgadas e mudanças no próprio uniforme.

As escolas com alunos mais ricos sempre trabalham ao gosto de freguês. Afinal, os indivíduos matriculados são clientes e têm sempre razão. Faz parte do processo ilusório de fornecer uma pseudo-interatividade ao comprador.

O uniforme existe desde a Idade Antiga. De origem militar, servia para reforçar a identidade dos soldados, estabelecer a hierarquia entre os homens e seus posicionamentos no campo de batalha. Controle!

Atualmente, o uniforme atende aos mesmos propósitos, porém em um número maior de áreas. É o atendente sem nome de um restaurante fast-food, identificado apenas pelas cores. É o funcionário terceirizado de uma universidade, que se diferencia de professores e demais “colaboradores”. Evidentemente, a escola adotou o uniforme no século XX pelas mesmas razões militares da Idade Antiga. Controlar alunos com mãos-de-ferro é o sonho de pseudo-educadores.
As instituições de ensino, muitas delas alicerçadas nas relações de consumo, perceberam que as algemas podem ser ornamentadas com flores, sem que o preso se dê conta da proposta. É a máxima weberiana: o mecanismo de dominação ocorre quando o dominado não nota o processo de controle e auxilia na própria relação de submissão.

As escolas, localizadas em grandes capitais, notaram que o uniforme influencia no cotidiano de seus alunos adolescentes. Como a moda é preocupação recorrente de seu público, bastou terceirizar o serviço e lançar uma espécie de “coleção outono-inverno escolar”. Ou seja: o uniforme ganhou uma linha de camisetas e acessórios. O público expeliu mais uma vez a faceta consumista, com a coleção de uniformes, de várias cores.

Nesta relação de consumo, a escola lucrou novamente. Os jovens, coitados, foram iludidos pela diferenciação, mas caíram de quatro na arapuca da padronização. As cores e os modelos das camisas são para todos, sem margem para criações autorais. Assim, a sociedade de consumo – impregnada em um tipo de instituição que deveria primar pela cidadania – mantém a perseguição à própria utopia: o consumidor único, com pensamento único, servil aos produtos idênticos e sem as resistências tribais. A felicidade exterior e a falsa liberdade numa camiseta.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Mr. Hyde ao volante

O olhar lânguido transparece a educação que beira a ingenuidade. A calvície denuncia a idade avançada. As mãos calejadas retratam alguém que criou os filhos com horas ao volante. Os olhos azuis recordam uma época em que foi atraente para as mulheres.

A calma ao falar é uma das primeiras lembranças dos colegas de praça. Ele está sempre disponível para aconselhar os companheiros de profissão, experiência de quem foi dirigente sindical e dirigiu com os famosos “rádios”. Hoje, prefere ser autônomo, não depender de terceiros e fazer um horário mais flexível que permite aproveitar a infância dos três netos.

O sossego desaparece no engatar da primeira marcha. Como o médico (Dr. Henry Jekyll) da obra de Robert Louis Stevenson que expele o monstro ao tomar uma poção, o motorista de táxi incorpora um piloto de provas em carro popular. O trânsito o altera e o transtorna. Dirige em alta velocidade em avenidas apertadas como a Pedro Lessa. Troca de pista várias vezes, mesmo diante de uma onda vermelha nos semáforos. Mão na buzina, ou melhor, socos no meio do volante que independem do nível do tráfego. A meta é ultrapassar a concorrência (não importa o número de rodas dos adversários) e vencer uma competição imaginária por vias cada vez mais congestionadas.

Mister Hyde dirige em Santos. Reclama constantemente do crescimento no número de automóveis numa malha viária paralisada em seu próprio limite. Percebe como as políticas de financiamento incham as ruas e avenidas com veículos populares, porém não de transporte coletivo. É fácil notar como boa parte dos carros transporta somente um ocupante. Uma moto em quatro pneus.

Com 418 mil habitantes, Santos possui uma frota de 240 mil veículos, segundo o Detran. Mil novas unidades se juntam ao grupo, em média, por mês. É uma caravana que, em horários de pico, afoga avenidas como Conselheiro Nébias e Ana Costa. E transforma pacatos motoristas em irritadiços pilotos.

As infrações são facilmente perceptíveis. Semáforos são ignorados no limite do tempo. Equipamentos como setas ganham contornos de decoração. Buzinas interrompem o silêncio após a luz verde em frações de segundo. Pedestres se assemelham a alvos de videogames, pelo menos no desejo expresso por xingamentos. Se pudesse fazer um sanduíche de motoboy com o veículo do lado, a prece resultaria em milagre.

A solução não parece tarefa exclusiva do sistema público e está além de simples políticas punitivas ou obras na malha viária. Envolve também comportamento! O que se vê é o lado negro de motoristas que, como o inofensivo taxista, só superam o efeito da poção ao estacionar no destino final e desligar o carro. Um ambiente urbano em transição, cuja dose se injeta no adormecido monstro a partir da próxima corrida!

OBS.: PUBLICADO NA VERSÃO IMPRESSA DO JORNAL BOQUEIRÃO.

sábado, 15 de março de 2008

A falsa gafe de quem?

Como reagiriam duas mulheres ao perceberem que foram a um evento com vestidos idênticos? Frustração? Vergonha? Raiva? Situação incomum que pode gerar comentários jocosos, porém sem maiores conseqüências para todos os envolvidos, inclusive os fofoqueiros.

Entretanto, o caso hipotético se transforma em factóide quando as duas mulheres se chamam Tais Araújo e Adriane Galisteu, e a gafe ocorre na apresentação do Circo du Soleil, em São Paulo. Poderia classificar a cena como um elemento de circo, mas seria perversidade aguda com os profissionais que se apresentaram na capital paulista. Perversidade presente nas lentes de paparazzis e outros espécimes semelhantes que cobriam o evento atrás justamente de um escorregão para estampar em seus sites, colunas e páginas de revistas de celebridades.

O problema é que a cena dos vestidos idênticos, oferecida como notícia para o público, se revelou uma ação estrategicamente calculada, inclusive a reação de surpresa das duas envolvidas. Os vestidos faziam parte de uma campanha publicitária, alinhavada em vários países, da marca de shampoo Seda. Nos Estados Unidos, por exemplo, Madonna foi uma das contratadas pela empresa.

O assunto serve para analisarmos o papel dos jornalistas diante de um quadro de transformações na mídia. Transformou-se em clichê apontar o excesso de informação e a velocidade na circulação de dados para justificar mau jornalismo. A atividade jornalística, mesmo a mais rasteira, está entre duas paredes que gradualmente reduzem a distância entre si. As paredes se chamam marketing e entretenimento.

A mídia, na atualidade, caminha rumo à fusão de linguagens e de posturas técnicas e éticas que devem analisadas com critério, e não simplesmente reproduzidas como práticas dogmáticas. Assim, cabe aqui observar o fato por duas perspectivas: de quem criou a estratégia e daqueles que caíram como bobos na jogada ao economizar tostões quando oferece mídia gratuita.

Em primeiro lugar, aproveitar eventos e/ou criar factóides entre celebridades não é inédito. No ano passado, por exemplo, a revista Contigo publicou uma capa em que insinuava um relacionamento amoroso entre a atriz Karina Bacchi e o baixinho da Kaiser, garoto-propaganda da cervejaria. Era o início de uma campanha publicitária.

Segundo o Jornal da Tarde, que publicou reportagem crítica a respeito do comportamento de outros veículos, especialistas em marketing elogiaram a proposta da marca de shampoo. Um deles classificou como “marketing de guerrilha”, uma daquelas expressões/derivações que se transformam em moda. Para mim, cheira falta de ética. O consumidor foi ou não enganado por um falso fato, por uma gafe construída, com a conivência das envolvidas e dos jornalistas?

Por outro lado, este tipo de prática obtém resultados satisfatórios também pela incompetência de uma parcela dos profissionais de imprensa. Obcecados pelo espetáculo, pela exposição do outro em situações desconfortáveis, repórteres da indústria das celebridades (não são os únicos, mas o caso em questão!) se esquecem de um princípio básico da profissão: todas as informações precisam ser checadas, se possível mais de uma vez.

Os olhos e as lentes brilham diante daquilo que pode ser um escândalo em potencial. Erra-se e torce-se para que um fato novo cubra e abafe o deslize. Culpa-se a empresa, a publicidade, as fontes e até o público. A hipótese de um pedido de desculpas para aquele que depositou confiança nas informações publicadas não será levada em consideração.

O mau jornalismo reforça a argumentação da fusão de linguagens e da acepção de notícia como produto como única via a ser compreendida. Infelizmente! O menor resquício de responsabilidade social desaparece na mesma velocidade que as bolhas midiáticas se esvaziam. A ótica de produção de informação como objeto de consumo sepulta os elementos sobreviventes de que fazer jornalismo é uma ação cidadã, mesmo que seja vendido ao público.

Você pode se perguntar: será que as revistas de celebridades oferecem jornalismo? Só que o problema extrapola a indagação: factóides fabricados e difundidos para nos vender marcas e produtos não são prerrogativas deste segmento da mídia. A imprensa dita séria também se sensibiliza com a fofoca. Seja ela falsa ou verdadeira! E a reproduz com certo prazer vidrado nos cifrões, inclusive quando a pauta não são as celebridades do show business.

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Uma observação óbvia, porém pertinente: este escriba acredita cegamente nas reais possibilidades do jornalismo como prática de responsabilidade social. O ar pessimista do texto acima reflete a indignação – fundamental para reforçar a frase anterior - com a servidão de colegas diante da indústria da futilidade. Todos sabemos que ainda é possível localizar com clareza oásis onde Jornalismo se escreve com letras garrafais.

sábado, 8 de março de 2008

Sexo, mentiras e videotape

A vida de políticos, líderes, estadistas sempre aguçou a curiosidade de estudiosos a simples cidadãos. Isso é perceptível nos tradicionais livros de História, que se preocupavam apenas em relatar a trajetória de supostos heróis e vilões, vencedores e grandes derrotados. A biografia de personalidades políticas se tornou atraente para romancistas, cineastas e dramaturgos, que procuraram dar um certo molho a uma rotina profissional por vezes monótona e burocrática.
No entanto, figuras políticas entraram para a história (no sentido popular do termo) não apenas pelo que fizeram na vida pública, mas também pelos segredos de alcova. Ou seja: são lembrados, comentados, dissecados pelo que fazem no âmbito privado e, como num enredo ficcional, elementos sexuais se transformam em pimenta para melhorar o sabor de um biografado.
O cotidiano sexual de personalidades políticas, por vezes, ganha mais destaque do que as realizações administrativas. A transformação do príncipe Charles em absorvente feminino (palavras do próprio) para declarar paixão pela então amante Camila Parker-Bowles alimentou tablóides e o imaginário popular por semanas. Do outro lado, a lista de supostos amantes (muitos deles fizeram jus à fama) da princesa Diana contrastava com a imagem de moça ligada às causas humanitárias. Para muitos, a princesa do povo trazia visitantes aos aposentos para se vingar das constantes humilhações da família real. Coitada!
Do outro lado do Oceano Atlântico, os Estados Unidos, que atravessam grave recessão econômica, sonham com a instabilidade econômica da passagem do século XX para o atual. Mas a maioria dos norte-americanos lembra do ex-presidente Bill Clinton como o líder interessado em estagiárias feias que se escondiam embaixo de sua mesa.
Na semana retrasada, o senador John Mc Cain, virtual candidato republicano à presidência daquele país, teve que se defender – claro que ao lado da esposa plastificada e impassível – de acusações de relacionamento sexual com uma lobista. O jogo de influências na cama tornou secundária a denúncia de viagens em aviões de empresas ligadas à suposta amante. Até o Exterminador do Futuro se desculpou publicamente para vencer uma eleição. O governator Arnold Schwarzenegger era um costumaz bolinador de funcionárias. Na cultura política norte-americana, pular a cerca é pecado maior do que meter a mão no bolso alheio.
No quintal do mundo, as relações privadas e públicas dos políticos também alimentam o circo da mídia e as conversas de botequim. Recriam-se mitos, potencializam-se feitos e destroem-se carreiras. As fofocas são inerentes à história política brasileira. Comentava-se nas festas do Palácio Imperial que a Marquesa de Santos era tão dominadora que influenciava decisões políticas de D. Pedro. E Carlota Joaquina que, ao se desgarrar de D.João VI, usava e abusava do poder para seduzir escravos.
A lista é enorme e envolve ministros (o casal Bernardo e Zélia nos tempos de Collor), ex-presidentes construtores de capitais no cerrado, deputados e senadores em suas festas organizadas por cafetinas em Brasília. Sexo sempre andou de lençóis entrelaçados com a política.
È evidente que a exposição privada de personalidades públicas, na atualidade, cresceu em função da velocidade na circulação de informações, da maior quantidade de veículos de comunicação e da presença de novas mídias no cotidiano das pessoas, entre outros fatores. Em outras palavras, fuçar o que ocorre atrás das cortinas do espetáculo é um processo industrial e que resulta em lucro porque há público interessado em debater e interpretar tais segredos.
E quando acontece na micro-política, nos rincões do Brasil? Misturar público e privado pode destruir um político, guardadas as devidas proporções. Na semana passada, um ex-prefeito foi condenado à prisão por, indiretamente, ter comportamento promíscuo.
Olivan Antônio de Bortoli, ex-prefeito de Campos Borges (RS), foi condenado pelo Tribunal de Justiça do Estado por usar um carro oficial para ir ao motel em 11 de agosto de 2003, quando exercia o cargo de administrador da cidade. Olivan estava em horário de expediente e foi flagrado saindo de um motel com uma prostituta. Na ocasião, tentou negar o inegável, pois câmeras da RBS TV (afiliada da Rede Globo no Estado) o esperavam na porta do estabelecimento.
A condenação se deu com base no uso indevido, em proveito próprio, de bem público. No caso, um automóvel Santana, de propriedade da Prefeitura. O então prefeito argumentou que, no máximo, cometera infração administrativa e que não lesara o patrimônio público.
Os segredos da hidromassagem causaram sérios danos à carreira do então prefeito de Olivan Bortoli. O TJ estipulou pena de dois anos e oito meses de prisão, além de proibir o exercício de cargo ou função pública, por nomeação ou eleição, por cinco anos.
No entanto, antes que alguém pense que a moda pode pegar, Bortoli foi perdoado. Se o perdão veio da esposa, não sei. Mas do Poder Judiciário, definitivamente. A pena do ex-prefeito de Campos Borges foi convertida em uma hora de serviços comunitários por dia durante o período da condenação e a doação de três salários mínimos a qualquer entidade assistencial do município.
A política e o sexo, no meio político, funcionam de maneira semelhante. Em ambos os casos, vale a pena flertar com o outro, sustentar relacionamentos por vezes eventuais e, acima de tudo, aparentar romantismo no momento da conquista. Estes fatores podem assegurar um momento de êxtase quase perfeito, mesmo que tenha que se desculpar depois.

Obs.: O título deste texto é emprestado de filme de mesmo nome, que fez relativo sucesso nos anos 80.

sábado, 1 de março de 2008

O endereço errado

Depois de alguns anos de afastamento, provocado pelos compromissos da vida, a amizade entre nós foi retomada. Para cumprir uma promessa, fui conhecer o ambiente de trabalho dela, recém-conquistado por esta profissional plenamente dedicada a alterar o entorno de seu universo.
Ao chegar no local combinado, o primeiro estranhamento de minha parte. Os muros eram altos, com três metros de altura, pintados de cinza, sem vida. Talvez fosse uma nova corrente artística! A pintura era uniforme, sem identificações do lugar, sem quaisquer particularidades que dessem pistas do anônimo autor das pinceladas.
O recepcionista do portão de entrada estava armado de cassetete e vestia um típico uniforme de guarda. O próprio portão assustava pela imponência e por estar trancado àquela hora do dia com vários cadeados, dos mais variados formatos. A justificativa do guarda para tanta preocupação eram as constantes fugas. Muitos dos internos escapavam com a luz do sol. Houve um que até sorriu para os guardas enquanto pulava o muro. Simplesmente desapareciam, às vezes com a ajuda de familiares e amigos.
Após a devida identificação, fui encaminhado para a recepção da unidade. Outro portão, este menor e com apenas uma tranca. Um funcionário me atendeu mecanicamente. Não foi necessária revista, pois minha amiga avisara a respeito do visitante. Mesmo assim, tive que informar o que carregava na bolsa. A explicação do funcionário foi imediata: como o lugar enfrenta diversos casos de violência, tornou-se necessário se precaver. E desconfiar de todos. Muitos dos internos têm históricos de agressão. Até armas de fogo passaram pelos mecanismos de segurança, embora os conflitos mais freqüentes envolvam socos e pontapés. Se é que isso refresca o clima.
Nos corredores, vários funcionários, muitos deles uniformizados. A roupa padronizada indicava um grau mais baixo na hierarquia funcional, porém não reduzia a importância deles no contexto. O trabalho consistia numa simples tarefa: monitorar o tempo todo os garotos, independente do que fizessem de forma oficial (limpeza, cozinha etc.). Afinal, o objetivo dos homens engaiolados é sempre escapar. Qualquer aproximação, qualquer relacionamento gera desconfiança de ambas as partes. Posicionam-se como adversários no mesmo campo de batalha. Acordos informais mantém a paz temporária.
O tempo ali passa mais devagar, decorrente do ar pesado, monótono, em permanente estado de tensão. Não se trata mais, como lamentava um monitor mais antigo, de recuperar ou desenvolver o indivíduo; significava somente passar um período de suas vidas (neste caso, para todos os envolvidos).
Como o local que visitava era considerado pelos gestores públicos uma unidade exemplar, todos os indivíduos ali registrados andavam devidamente uniformizados. A diferença é que não tinham nomes. Viravam números. E ai de quem quebrasse a regra da boa aparência. Imagem é tudo, dizia a cartilha emitida pelo governo.
Os indivíduos de bom comportamento – ou de bom relacionamento com a direção, que pode significar a mesma coisa – ganhavam regalias como recompensa. Conheci um deles durante a visita. Parecia um garoto de futuro. Vinha de família desestruturada, porém a mãe fazia questão de que ele se recuperasse a tempo de viver bem no mundo externo. Ela comparecia regularmente à unidade e cobrava providências da equipe diretora. Era vista como petulante e intrometida por muitos dos profissionais que trabalhavam ali. Quem era ela – na concepção deles – para criticar e dizer o que deveria ser feito, mesmo que tivesse razão.
O garoto fazia parte de um programa que incluía uma série de atividades extras, visando – na retórica da política pública – elevar a formação dele e assegurar que pudesse realmente sair dali com uma perspectiva de oportunidades no mercado de trabalho.
Ao conversar com minha amiga, no entanto, ficou claro que o programa não abria margem para a criação humana. Criatividade era um empecilho. O que valia era cumprir adequadamente as regras, manter a aparência, apresentar bom comportamento e – se possível – não pensar sobre o funcionamento do sistema. E jamais questioná-lo. Segundo uma das monitoras, aqueles indivíduos não tinham nada na cabeça. E repetia: cabeça vazia, oficina do diabo. Estavam ali para sair após prazo definido e – quem sabe? – mudar de instituição. Não seriam livres e – como bem frisou uma das integrantes da equipe diretiva – críticos, palavra excomungada do dicionário.
A filosofia que me foi apresentada se confirmava na agenda do dia. Tudo seguia a rigorosos horários: refeição, atividades físicas, visita ao pátio, encontro com familiares. É evidente que todas as tarefas – este era o nome usado de forma corriqueira – eram supervisionadas à risca. Falhas eram inadmissíveis. Punições, constantes. Contagens aconteciam várias vezes ao dia, durante as filas e entradas e saídas dos pavilhões. Em muitos casos, o diálogo se mostrava peça de ficção. A conversa caminhava na base de gritos, claro que oriundos de quem tinha mais poder.
Após um par de horas, minha amiga me acompanhou até a saída. Notou meu semblante decepcionado e assegurou que acreditava numa mudança. Que o local seria menos violento! Que os profissionais seriam melhor preparados para lidar com os jovens que ali estavam! Que era possível pressionar os políticos para implantar mudanças estruturais de longo prazo! E que, independente disso, faria o que fosse para alterar ao menos aquele micro-cosmo, aquela unidade que aprisionava pessoas!
Acredito nas palavras dela, mas saí de lá com a estranha sensação de ter ido ao endereço errado. Com a devida licença poética, ela trabalha numa escola.