quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Safáris, corredores, sangue e ditadores

O país é distante, encontra-se à beira de uma guerra civil entre etnias unidas pela colonização, apresenta altos índices de corrupção segundo organismos internacionais e recebeu dinheiro norte-americano (cerca de US$ 1 bilhão) para a compra de armas. Iraque? Síria? Afeganistão? Paquistão?
O cenário valeria quase que integralmente para todos os citados, mas nenhum deles é o barril de pólvora do momento. A nação em foco é visitada por milhares de turistas que desfrutam de safáris em reservas ambientais. Afinal, a maioria parte dos animais selvagens foi dizimada por aventureiros, contrabandistas de matérias-primas e turistas, com a conivência do governo local, historicamente adepto de uma “caixinha”. O país também atrai a atenção dos brasileiros no último dia do ano, pois produz corredores em grande quantidade, sempre entre os primeiros na tradicional Corrida de São Silvestre.
O Quênia é uma das mais importantes nações africanas e vive uma crise política que foi capaz de interferir – mesmo que timidamente - nas primárias eleitorais para a presidência dos Estados Unidos. A economia queniana é estável, e o país cresce cerca de 6,5% ao ano, índice equivalente ao da Rússia e superior ao do Brasil. Em 2007, Nairóbi, a capital, recebeu milhares de manifestantes para o Fórum Social Mundial, principal mecanismo de oposição ao Fórum Econômico Mundial, que reúne anualmente as grandes potências em Davos.
Independente da relevância internacional, a política interna vive em frangalhos. O presidente Mwai Kibaki se reelegeu em 27 de dezembro. O pleito foi contestado com violência pela oposição, liderada por Raila Odinga. O presidente alega que a eleição é legítima. A oposição se recusa a fazer parte do Governo, pede novas eleições, a renúncia do presidente Kibaki ou sugere participar de um governo de coalizão após nova votação.
A Organização das Nações Unidas (ONU), para variar, tenta o diálogo entre duas partes que não desejam conversar. Aperto de mão simbólico, como ocorreu no dia 24 de janeiro, não traz efeitos práticos. A organização, por enquanto, olha pelos canais diplomáticos para uma nação com cara, corpo e sangue de guerra civil. Assim como foi em Ruanda, Angola e em outras 15 nações da África.
A crise política no Quênia envolve ainda o componente étnico. O presidente Kibaki pertence a etnia Kikuyu e foi eleito pela primeira vez há seis anos com promessa de mudar os rumos da política local, que permaneceu nas mãos do mesmo grupo por quatro décadas. Os kikuyus são maioria na região central do país. O líder da oposição, Raila Odinga, é de outra etnia, a Luo, presente nas favelas da capital Nairóbi e no oeste do Quênia. As duas etnias pegaram em armas em várias áreas.
O impasse no Quênia se traduz em dezenas de mortes diárias, fruto de conflitos em várias regiões. Até agora, cerca de 700 pessoas morreram. Outra conseqüência são milhares de refugiados, obrigados a tomar a estrada com pouco mais do que a roupa do corpo. Os organismos internacionais estimam em 250 mil desabrigados. Imagens aéreas retratam cidades devastadas, onde centenas de casas ardem em chamas. A cidade de Nakuru, no Vale do Rift, por exemplo, foi fechada por forças paramilitares.
Por que o Quênia é importante, além do esporte e do turismo? Esta crise não é importante porque simplesmente preocupa os Estados Unidos, mas por atrair os olhos belicistas deles para lá. O retrospecto de interferência da política externa norte-americana é desastroso. Basta observarmos Iraque, Afeganistão e Faixa de Gaza. Os Estados Unidos sabem que o Quênia se configura em um ponto estratégico na África Oriental ao ponto de manter bases militares naquele país e contar com o apoio queniano para conflitos, por exemplo, na Somália.
A turbulência no Quênia também chama a atenção dos chineses, que aplicam cerca de 10% de seus investimentos no continente africano. É a aplicação de uma mentalidade pós-colonial. Em outras palavras, interferência econômica, sem colocar o dedo nas seculares feridas políticas e étnicas. A China necessita de matérias-primas e, no final da linha, de novos mercados consumidores. A contrapartida é a construção de estradas, hospitais, escolas e indústrias de base com capital chinês.
A crise no Quênia representa um retrocesso aos anos 90, quando o partido principal do país, Kanu, governava com mãos de ferro e incitava os conflitos inter-étnicos. A União Africana, atualmente presidida por Gana, foi incapaz de acalmar os ânimos. Apelou para a ONU, que pouco progresso fez. O Fundo Monetário Internacional (FMI) manteve a suspensão de apoio financeiro por causa da corrupção. As principais potências econômicas adotaram o discurso de sempre: repudiar a crise e assistir ao circo pegar fogo.
Assim, a mais importante economia do leste africano caminha para a desestabilização. Adiciona-se ao caldeirão o prejuízo humano de mais uma nação africana atolada em armas e sangue, que acompanha o rumo dos vizinhos Sudão, Etiópia e Somália.

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