sábado, 19 de janeiro de 2008

Os vampiros vão ao rodeio

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgou o número recorde de filiados no Brasil em 2007. São 815 mil pessoas que se ligaram a partidos políticos no país. Em Santos, são 21 mil filiados, cerca de 7% dos eleitores. O maior crescimento na cidade aconteceu no PSDB, que saltou de 1900 para 4100 correligionários.
O aumento de filiações é visto como natural em um ano anterior à eleição. Em Santos, por exemplo, se o quadro das últimas duas votações for mantido, serão mais de 300 candidatos a vereador para 17 vagas, mais concorrido do que qualquer vestibular da Baixada Santista.
No entanto, em um país com 29 partidos, que simbolizam um sistema político com feições de Frankenstein, por que muitas pessoas ainda se interessam em se conectar a uma agremiação partidária?
Ser político, ou melhor, estar no poder é o melhor emprego da atualidade. O salário é bem acima da média nacional. O eleito tem direito a um grupo de assessores, também com remuneração alta e, em muitos lugares do Brasil, disposto a dividir seus vencimentos com o chefe. Os benefícios do cargo também envolvem carro, telefone, moradia (dependendo da localidade), viagens, roupas, alimentação, entre outras mordomias. O emprego, acima de tudo, pode assegurar impunidade e prestação de contas de longo prazo. Seus clientes-eleitores, então, jamais cobram pelos erros. Com exceção do último item, ainda assim discutível, estar no poder é o único emprego que rivaliza e supera o jogador de futebol de alto nível.
Os filiados de última hora, em sua grande maioria, desconhecem a definição da palavra ideologia. Como pensar nisso com 29 partidos, quase todos de aluguel, sobreviventes de sucessivas barganhas? Basta pensarmos no caso do deputado Clodovil Hernandes, que se elegeu pelo PTC (conhece?) com 500 mil votos, e já mudou de casa. Não se trata de uma exceção. Se observarmos a Câmara de Santos, há vereadores que se encontram na terceira filiação. São Vicente, por exemplo, chegou ao cúmulo de ter todos os vereadores apoiando a Prefeitura.
Mas estes são políticos profissionais, vampiros de eleição. A massa de filiações se deve àqueles que também desejam sugar um pouco de sangue do sistema público. Não se candidatam, não fazem política por ideologia, mas por interesses pessoais ou de pequenos grupos, em busca de vantagens que só o Poder Público pode presentear. Os números do TSE não deixam mentir. Ou seja: quase sempre a migração de filiados acontece de partidos fora do governo para as agremiações que estão sentadas à mesa em torno do Executivo.
O eleitor, neste cenário, não é vítima. Trata-se de um cúmplice, com Mal de Alzheimer eleitoral, incapaz de cobrar prestação de contas de seus escolhidos e pouco interessado no troca-troca de partidos. Vota em pessoas e pensa em si mesmo na hora da escolha. É aquele candidato que empregou o parente. O político que conseguiu a poda da árvore na frente de casa. O vereador que obteve o asfalto para a rua onde o eleitor reside. Pouco importa se a via ao lado se encontra esburacada. O eleitor fornece o pescoço para os sanguessugas de bom grado, crente que levará vantagem nisso.
Em abril, o TSE divulgará nova lista de filiados no país. Lá, o cenário eleitoral estará mais claro, com as candidaturas expostas e na rua. Infelizmente, com o mesmo inchaço de partidos e de candidatos, todos interessados em aglutinar forças para negociar benefícios a partir de 2009.
Isso me faz lembrar o filósofo francês Luc Ferry, um dos intelectuais de maior visibilidade hoje na Europa Ocidental. Ele foi ministro da Educação da França por dois anos, durante o governo de Jacques Chirac. Ferry disse que foi convidado ao cargo como representante da sociedade civil. Quando assumiu a função, achou que havia recebido um cavalo de corrida, que o permitiria avançar rumo às reformas do sistema educacional.
O filósofo percebeu depois que havia recebido um cavalo de rodeio. Para ele, na política, não interessa caminhar à frente, mas sobreviver o maior tempo possível no lombo do animal, praticamente no mesmo lugar. Em outras palavras, manter-se a qualquer preço no poder. Neste sentido, é notório que a maior parte dos políticos profissionais – nos discursos e atitudes – e suas cortes de bajuladores estão claramente obcecados por subir no cavalo, ficar mais do que oito segundos nele e, de preferência, chupar todo o sangue possível do pescoço do eqüino. Com a colaboração daqueles que apertaram as teclas da urna eletrônica. É triste ver a falta de politização e de senso da coisa pública.

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