segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

O norueguês e os pinguins

Roald Amundsen é um herói europeu e de grande parte daqueles que se apaixonaram por expedições. Ele é fruto de uma mentalidade que renasceu com impacto na passagem do século XVIII para o século XIX, quando cientistas e aventureiros resolveram conhecer e explorar lugares exóticos e distantes do planeta, muitos deles infelizmente a serviço de governos com o olhar colonizador. Tratava-se, em parte e com algumas diferenças, da retomada do período das grandes navegações.
O vírus colonizador não infectou Amundsen, nascido na Noruega e, portanto, habituado ao mundo gelado desde a infância. Em 1899, ele foi imediato do navio Bélgica, que fez a primeira invernagem no continente antártico. Um dos integrantes da embarcação era o cientista polonês Henryk Arctowski, o primeiro a fazer um estudo meteorológico da Antártida.
O norueguês, no entanto, entrou para a história em 14 de dezembro de 1911 quando, acompanhado por 52 cães e quatro trenós, alcançou o Pólo Sul, penúltimo extremo do planeta a ser atingido pelo homem. O último foi o Monte Everest em 1953. Na corrida ao Pólo Sul, Amundsen derrotou o capitão inglês Robert Scott, que chegou ao mesmo ponto em 14 de janeiro de 1912 e morreu de frio, ao lado de dois homens, no retorno da expedição.
Esses viajantes tiveram influência na transformação da Antártida no único continente neutro da Terra. O espaço não pertence a nenhum país e há um acordo de preservação coletiva e desenvolvimento de pesquisas científicas até 2050. O Brasil é um dos países que trabalham no local. Cerca de 50 cientistas de várias universidades pesquisam e monitoram a Antártida a partir da Estação Comandante Ferraz. Aliás, o nome é estação, pois base apresenta conotações militares, o que difere dos objetivos idealizados para a Antártida.
Nesta semana, as comunidades científica e ambiental arregalaram os olhos com a divulgação de um estudo chefiado por Eric Rignot, do Instituto de Tecnologia da Califórnia. De acordo com a pesquisa, o aumento de perda de gelo no continente cresceu 75% nos últimos dez anos. São 192 bilhões de toneladas de gelo a menos apenas em 2006. O cientista Jonathan Bamber, em entrevista a Eduardo Geraque, da Folha de S. Paulo, disse que quatro bilhões de toneladas de gelo, por exemplo, abasteceriam de água o Reino Unido por um ano.
O estudo não foge á regra recente e aponta as mudanças climáticas como responsáveis pelo problema no continente antártico. Em outras palavras, a temperatura marítima esquentou, provocando o derretimento acentuado das calotas polares, em função da elevação da temperatura atmosférica.
Se a Amazônia é considerada o pulmão do planeta e, a partir daí, ganhou importância geopolítica na agenda diplomática, a Antártida pode ser vista como os rins, de igual peso para o equilíbrio do sistema ambiental, principalmente nos oceanos. O degelo na Antártida afeta, por exemplo, o nível do mar. A relação entre os dois lugares é tamanha que cientistas já localizaram na Antártida partículas decorrentes de queimadas da Amazônia.
Ninguém se arrisca a fazer previsões. Contudo, as reações ambientais em cadeia já são suficientes para gerar temores, inclusive com base histórica. Na Península Antártica, região do continente onde fica a estação brasileira, a temperatura subiu 5 graus Celsius nos últimos 50 anos.
O ecossistema na Antártida é um dos mais frágeis do planeta. Os organismos apresentam maiores dificuldades em se adaptar às mudanças no clima. Muitas espécies, entre elas os pingüins, tem que percorrer distâncias cada vez mais longas em busca de alimentação. Os verões, nesta década, foram mais extensos, o que interfere também o ciclo reprodutivo de muitos animais e plantas.
Este cenário se constitui somente em mais um indicativo de que as discussões ambientais devem sair da mesa dos burocratas ou dos debates de boutique de shopping center. O investimento em ciência também se posiciona como fundamental para se buscar saídas de curto, médio e longo prazos, além de mecanismos de prevenção. O recado vale ainda, com força na palavra, para o Governo brasileiro, que investiu míseros R$ 25 milhões no Programa Antártico (Proantar) em 23 anos. A prática política tem que incorporar o valor da ciência, que traz intrinsecamente a curiosidade pelo mundo e a relação apaixonada entre homem e natureza, que colocaram indivíduos como Amundsen na história.

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