terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Ruanda, o anonimato africano






A notícia ganhou o espaço tradicional para àqueles que pouco interferem nos aspectos da crise econômica mundial, infestada de medos, medidas e contra-medidas, auxílios financeiros e paranóias corporativas. No maior portal de notícias do Brasil, o fato recebeu exatas 20 linhas, traduzidas de uma agência internacional de informação.



O Tribunal Penal Internacional para Ruanda (TPIR), localizado em Arusha (Tanzânia), condenou, no último dia 18, três oficiais do exército à prisão perpétua. Outro oficial foi absolvido. O coronel Theoneste Bagosora foi considerado o líder do movimento que promoveu o genocídio contra tutsis e hutus moderados em 1994. Segundo o juiz norueguês Erik Mose, os três devem ser responsabilizados por “genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra”.



O coronel tem 67 anos e era diretor de gabinete do Ministério da Defesa no período em que aconteceu o massacre. Bagosora é de etnia hutu, que se encontrava no poder na ocasião. Ele negou as acusações. Em 1993, o coronel teria dito que prepararia o “apocalipse” após o fim das negociações com a Frente Patriótica Ruandesa, ligada à etnia tutsi, hoje no poder.



Ruanda é um país africano do tamanho do Estado de Sergipe. Lá, vivem cerca de oito milhões de pessoas, a maioria sem infra-estrutura básica. No contexto geopolítico, a importância de Ruanda se aproxima de zero. Trata-se de mais uma nação com péssimos indicadores sócio-econômicas, sem fontes econômicas sustentáveis (como parque industrial), fruto de exploração de matéria-prima, cercada por países em guerra civil e sem apoio de organismos internacionais com projetos de desenvolvimento.



Ruanda estaria condenada ao ostracismo se não tivesse sido palco de um dos maiores genocídios da história. Em 1994, durante uma guerra civil entre hutus e tutsis, as duas principais etnias do país, cerca de 800 mil pessoas foram assassinadas, muitas delas a golpes de facão. As mortes ocorreram em cem dias. Isso que você acabou de ler!!! 10% da população morta em pouco mais de três meses.






Mais do que militares ou mercenários, muitos assassinos eram até então pessoas comuns, sujeitos que sobreviviam à miséria do local. Passaram a cumprir “expediente” de facão nas mãos, executando amigos, vizinhos, colegas, idosos, mulheres e crianças. Uma macabra catarse coletiva, ignorada pela mídia internacional. Um território abandonado pela ONU, que retirou suas tropas, pois estava mais interessada nos problemas da Bósnia, também foco de massacres.



É possível crer que um tribunal internacional pode ser justo depois um genocídio? Até que ponto apontar e condenar culpados altera o cenário político e social de um país esfacelado por disputas contínuas de poder? É evidente que não se podem misturar as estações. Os responsáveis – os sujeitos de que deram as ordens, traçaram as estratégias e desprezaram quaisquer rastros de decência humana - merecem punições exemplares, inclusive no sentido de se registrar historicamente a resposta para tais atrocidades.



No entanto, o debate deve ir além da mera contabilidade de uma condenação jurídica. Uma situação como esta implica em contextualizar o papel da África no mundo contemporâneo. Significa compreender que Ruanda não representa exceção. É a multiplicação da regra.



Ruanda, assim como a maioria dos países africanos, enfrenta sucessivas trocas de poder entre os mesmos atores, todos semelhantes na violência, na corrupção e na perpetuação da desigualdade econômica e social, calcada no cultivo do assistencialismo barato. O Estado como elemento diretivo da transgressão. O Estado como organizador do crime.



Dos 53 países africanos, somente 19 podem ser considerados democráticos. O continente testemunha cerca de 15 guerras civis. A região onde se localiza Ruanda é o principal foco de combates. Todos os vizinhos ao redor lutam contra si mesmos. Em Ruanda, hutus e tutsis – divisão fruto do controle do colonizador belga no século XIX – mal resolvem suas rusgas, mas se abraçam na instabilidade política.



Não se pode admitir como natural que muitos dos países africanos ganhem visibilidade pelo desastre ou pelo futebol em tempos de Copa do Mundo. Ou ainda pelos olhos chineses, os colonizadores do início deste século. Também não se pode considerar inerente a presença de aviões repletos de comida e remédios como a solução para os males de um continente com 900 milhões de habitantes, metade dos quais se mantendo com menos de um dólar por dia. Até porque uma parte é normalmente desviada pelos próprios governos.



Duas sugestões para entender Ruanda. A primeira é o filme Hotel Ruanda (EUA, 2005), com Don Cheadle, Joaquin Phoenix e Nick Nolte. Direção de Terry George e três indicações ao Oscar.






A outra é o livro Gostaríamos de informá-lo de que amanhã seremos mortos com nossas famílias (Cia. das Letras), do jornalista norte-americano Philip Gourevitch. Nos dois casos, pode-se perceber que hutus e tutsis são reflexos do mesmo espelho, física e culturalmente, e que seu líderes representam a ferida de um minúsculo país ainda em sangria. Hoje, a denominação das etnias é proibida, mas uma mancha como esta não se apaga com canetadas governamentais.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Ditador morto, golpe na praça




O corpo não havia esfriado. O presidente Lansana Conté, de 74 anos, morreu na última segunda-feira, dia 22, e o Exército da Guiné já deu um golpe de Estado. No dia seguinte, por sinal! O porta-voz dos golpistas, o capitão Mussa Dadis Câmara, informou à BBC que um conselho – composto por vários coronéis, um general e seis civis – passaria a governar o país.



A União Africana resolveu se reunir na véspera de Natal para discutir situação da Guiné, embora o primeiro-ministro Ahmed Tidiane Souare tenha dito em rede de TV que o governo civil mantém a legitimidade. O primeiro-ministro e outros integrantes do governo são protegidos por tropas leais a Conté. A União Africana condenou o golpe militar com o argumento de que houve violação à Constituição. A carta magna, aliás, prevê eleições em 60 dias, numa situação como a atual. Ou seja: com a morte do presidente.



O porta-voz dos militares que assumiram o governo afirmou, na rádio estatal, que “as instituições da república foram dissolvidas”, pois o país se encontraria em “profundo desespero”, gerando a necessidade de intervenção sobre a economia e redução da corrupção do Estado.



É mais um capítulo que envolve ditadores e tomada de poder – de maneira ilegal – na história da África Contemporânea. O cheiro de guerra civil está forte! O fedor caracteriza o cenário que parece repetição de inúmeros casos no continente. Quem toma o poder à força utiliza o mesmo discurso do antecessor. Alega dificuldades econômicas e desmandos institucionais como equívocos que justificariam a substituição de comando.



A violência – que será utilizada posteriormente para conter adversários – serve também como argumento para o descontrole de quem foi retirado do poder. Uma curiosidade: o grupo golpista da Guiné adotou o sugestivo nome de “Conselho Nacional para a Democracia e Desenvolvimento”.



Uganda, Ruanda, Congo, Sudão, Etiópia, entre outros. A Guiné engrossa a lista de países sentados sobre indicadores sócio-econômicos sofríveis, com governantes agarrados a uma escalada de violência para se manter no controle da mina de matérias-primas de alto valor, negócios milionários com o primeiro mundo e as benesses da máquina burocrática.



A União Africana, por seu lado, é incapaz de localizar saídas práticas para problemas emergenciais. Cumpre, em parte, seu papel político ao se restringir ao campo da retórica, até porque muitos de seus membros possuem esqueletos no armário e em outros móveis da casa.



No caso da Guiné, a causa da morte de Conté é desconhecida, mas sabe-se que sofria de diabetes e teve leucemia. Conté governava o país desde 1984, quando assumiu o governo também em um golpe de Estado. Acusado de corrupção, ele superou duas eleições e agiu com braço duro contra os opositores. No ano passado, o Exército conteve com violência manifestações de dissidentes. Houve 186 mortos e cerca de 1200 feridos.



A Guiné, vizinha de Guiné-Bissau (onde se fala português), fica na costa oeste do continente e é banhada pelo Oceano Atlântico. Colonizado por franceses, o país se tornou independente há exatos 50 anos. A Guiné é rica em ferro, ouro e diamante e um dos maiores produtores mundiais de bauxita. No entanto, 53% da população vive abaixo do limite mínimo de pobreza.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Tempos atuais (ou modernos?)



Revi duas vezes, recentemente, o filme “Tempos Modernos”, de Charles Chaplin, para uma avaliação com meus alunos de História Contemporânea, na Universidade Católica de Santos. Confesso que não esperava tamanha atualidade no roteiro, capaz de indicar – com a sutileza necessária do humor poético de Carlitos – as bases para a crise econômica do mundo de hoje.
“Tempos Modernos” foi produzido em 1936, três anos após o fim da Grande Depressão, nos Estados Unidos. É justa a comparação entre o período e a crise econômica atual, sem as neuroses típicas de um pregão da Bolsa de Valores. Chaplin fala de uma sociedade vítima da recessão, que pouco entende os processos da economia, pois precisa resolver questões mais imediatas, como a próxima refeição ou o local para dormir a noite seguinte.

As duas primeiras cenas são cerejas no bolo. A primeira mostra uma manada de bois entrando num curral. A segunda, uma “manada” de pessoas apressadas rumo ao trabalho numa grande cidade.

O filme é o retrato da sociedade norte-americana que buscava superar os quatro anos de escassez, fruto de uma série de medidas equivocadas que culminaram na quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque, em 1929. Na verdade, Chaplin enxergava além ao apontar as contradições, deficiências e esquisitices de uma forma de viver que colocava o trabalho como dogma, como valor moral.



Naquele contexto, apareciam os primeiros indicativos de uma cultura onde o trabalho caminhava de braços dados com os movimentos sociais de consumo. A sociedade que apontava na face do indivíduo a posição que ocuparia (e locais onde transitar, mesas a se sentar, amigos a dividir etc.) pelo poder de compra, pelo poder adquirido a partir da possibilidade real de se enquadrar conforme as normas simbolizadas, por exemplo, pelo status.

Carlitos é o operário típico de um fábrica. Arrumou aquele emprego na falta de outro melhor. Não tem formação. È um mero executor de tarefas primárias, uma máquina repetidora de movimentos que abrem mão do pensamento. Pensar atrapalha a produção, atrapalha a lucratividade, gera o empregado preguiçoso.
A tecnologia, na produção industrial, é oferecida como maravilha sedutora, de engrenagens perfeitas. O homem-máquina, hoje uma extensão dos olhos no monitor, das mãos no mouse ou dos ouvidos no celular, sobrevive como réplica das engrenagens, iludido com a percepção de que as comanda, quando – na verdade – apenas as atende. As engrenagens permanecem; o homem, ser substituível.
“Tempos Modernos” nasce no auge do fordismo, da concepção de que vale a pena produzir em massa para um consumidor massificado. Não se pensava na diversificação de produtos e serviços. Valia o ato mecânico, o ser mecânico. Esta forma de produção – da transformação do homem na mercadoria em si – se reproduz atualmente em inúmeros endereços. Basta, por exemplo, visitar a praça de alimentação de um shopping center. Ali, podemos comer qualquer um dos sanduíches padronizados, feitos por um indivíduo em processo de desumanização, que falará com você de maneira robótica. O nome dele? O passado do sujeito? Absolutamente irrelevantes.




O homem-máquina das fábricas de “Tempos Modernos” é clonado no mundo contemporâneo. Independente de movimentos braçais e/ou cerebrais, o sujeito deve se manter como gado, seguindo os demais nos corredores demarcados do curral. Abdicando da reflexão. Impotente para questionar. Frágil para a desconfiança. A quebra destas premissas implica invariavelmente em choques, em conflitos nos quais o perdedor é o homem acoplado ao maquinário, o homem dependente de tecnologia.
A tecnologia não seria o meio, funcionaria como o fim das atitudes, o ponto de chegada de quaisquer teorizações sobre a vida cotidiana. Apagaria sentimentos, relacionamentos. A rotina na fábrica de Carlitos poderia tê-lo desumanizado. Mas a graça do personagem reside em criticar e rejeitar a ditadura do relógio, do ponto, do transcorrer das engrenagens e da ausência de diálogo entre empregados e entre empregados e patrões.
É evidente que o resultado se mostra nefasto e irônico. Carlitos é sempre visto como louco ou como alguém que deve ser preso. O marginal tem que ser detido. Deve ficar longe da exposição, exceto quando cumprir o papel de exótico, maluco, bizarro.
Chaplin ainda tateia no contemporâneo quando observa este comportamento social nas relações de consumo. A sociedade de consumo estava em fase embrionária, mas ele consegue perceber como a exclusão e a inclusão pela compra de objetos se tornam pilares no cenário público.
“Tempos Modernos” vê também como a cultura pode ser devidamente repaginada numa embalagem de entretenimento, absorvendo a implacável estratégia de desvio do foco, principalmente quando explodem dificuldades na economia. Hollywood não apenas sobreviveu como lucrou com a Grande Depressão. O cinema da época se caracterizou por histórias de amor, produzidas em série como carros de uma mesma tonalidade.




Em 1936, Chaplin – ainda dentro deste modelo – consegue analisá-lo sem deixar de lado o humor, como pode ser visto nas seqüências finais, em que Carlitos trabalha de garçom em um restaurante e se vê obrigado a cantar para a platéia. A letra, sem aparente sentido, pouco importa para aqueles que pretendem somente esvaziar a mente e comer bem.

Chaplin mantém o caráter visionário e atemporal nesta obra. Ele é genial na universalidade de temas, na descrição de ações humanas que transcendem a maioria das culturas, somente com adaptações de espaço e tempo. No caso de “Tempos Modernos”, a ironia do título aponta, infelizmente, o medieval em nós, crentes que somos modernos.

Conquistas militares, conquistas 'espirituais'

Por Alexandre de Souza Costa*


O desabrochar das primeiras flores da primavera do ano 333 a.C. marcou o inicio de uma das mais magníficas histórias de invasão por uma civilização, porém sangrenta. Era a invasão da Ásia Menor pelo exercito de Alexandre, rei da Macedônia. O objetivo era simples: vingança por ataques anteriores à Grécia Antiga, prevenir futuras incursões dos Persas e acumular riquezas materiais, tais como ouro e outros metais preciosos.


Passado pouco mais de um século, na África Ocidental e após a derrota da primeira guerra Púnica, Cartago (uma das mais belas cidades do mundo antigo) começa a florir novamente. Ela expande suas fronteiras e área de influência para a região da Espanha atual. Região esta que poderia gerar novas riquezas, engordando os seus minguados cofres e flanquear no continente Europeu o seu maior inimigo na época, Roma.




Com esta intervenção, Cartago poderia prevenir quaisquer futuros ataques a sua cidade (que ficava na África – hoje, região próxima a Túnis – Tunísia) e também usar esta região como trampolim para um futuro ataque preventivo. E foi assim que aconteceu.

No ano de 58 a.C., a cidade de Roma não era mais uma simples cidade-estado. Ela dominava toda península Itálica, Grécia, Macedônia, parte da Ásia menor, grande parte da península Ibérica, todas as ilhas do mar mediterrâneo. Pedaço da África Norte estava sob seu julgo também. Toda esta pujança fora conquistada durante e após as guerras Púnicas. Com isso, Roma estava se configurando como a principal potência do mundo ocidental.

Motivada por estas conquistas, Roma desejava manter o poder sobre estas áreas, em especial a Européia, pois sabia que atrás dos Alpes estava a Galia Transalpina. Os povos que se encontravam ali eram “parentes” dos que viviam na Galia Cisalpina (subjugados séculos anteriores no norte da península Itálica). Estes poderiam atacá-los em solidariedade aos parentes “Gálicos Italianos”.

Roma, através de um dos seus cônsules, Caio Julius Cesar, invadiu a Galia Transalpina com o argumento de prevenir futuros ataques a sua república. Conquistou toda a região, onde hoje estão França, Suíça e Bélgica.





Os ventos que sopravam no mundo ocidental durante a Antigüidade, tal como citados nos parágrafos anteriores, também sopraram em épocas posteriores, ora com conquistas militares, ora com conquistas espirituais, ora conciliando os dois aspectos. E isso aconteceu em vários lugares e momentos, tal como na Península Ibérica.

Após a independência de Portugal no século XII até as últimas conquistas territoriais contra os mouros e também contra o reino de Castela, Portugal fortaleceu suas instituições, visando algo grandioso que - menos de 4 séculos depois -, o tornaria um dos maiores impérios do mundo cristão. O império ultramarino português.

Oficialmente, muitos historiadores, entre eles o português Jaime Cortesão, afirmam que a conquista de Ceuta em 1415 no norte da África marcou o inicio da política ultramarina. A expedição a Ceuta tinha como meta criar um posto avançado na África Moura, para inibir futuras incursões contra o sul de Portugal, além também de tentar criar influência na região.

Os mesmos ventos que suavizavam o calor, ou aumentavam o frio no inverno, e que levaram os portugueses para o além-mar, também impulsionaram outros reinos a lançar-se nos mares da história. Um destes reinos fora o da Inglaterra que, do século XVII a meados do XX, dominou os mares do mundo e fez valer a sua própria vontade, seus próprios interesses através de sua marinha de guerra, ou como explica o pesquisador Igor Fuser em seu texto intitulado Mundo Britânico “(...) uma retórica em que o interesse econômico do lucro era igualado à preocupação estratégica com a segurança.” Isso pôde ser visto em vários lugares do mundo, como a conquista da América do Norte, ilhas do Caribe, Índia, cidades portos da China etc.


No século XIX, o conceito do livre comércio é a base dos interesses econômicos dos ingleses, que usaram a marinha mercante para propagar tal conceito, ou em muitos outros casos, usaram os canhões de sua marinha de guerra para valer tal ação. Esse novo arcabouço econômico ocidental, também fora copiado por outras nações, tais como: Alemanha, França, Bélgica, Itália, Rússia, Japão e Estados Unidos. Esta última entrou na “competição” direta e embalada pelo fortalecimento interno de sua economia pós-guerra civil e também pelo senso de pan-americanismo dos dirigentes do país que surgirá ao longo dos séculos XIX e XX.

O primeiro momento da história, quando vimos os Estados Unidos usarem como pano de fundo o conceito do livre comercio em sua empreitada imperialista e também como potência mundial, fora em 1853, quando enviaram uma expedição “diplomática” ao Japão, composta por navios militares. Quando os diálogos diplomáticos cessaram por parte do Japão, os Estados Unidos colocaram em prática a outra face da moeda, a diplomacia dos canhões da marinha de guerra.

Não houve um conflito armado propriamente dito, mais houve uma tensão muito grande no ar e fez, que o “bom senso” dos japoneses viesse à tona, dando inicio à modernização do país com acordos comerciais. Assim, os produtos norte-americanos começaram a entrar no Japão.

Tal como uma frota americana singrou os oceanos rumo ao Japão no século XIX, as atuais frotas americanas singram os mares do nosso mundo contemporâneo protegendo os interesses econômicos e estratégicos de seu país, tal como acontecera com a Inglaterra no passado. Entre estas frotas está novíssima 4ª frota com base no sul da Flórida (a mesma Frota já fora criada durante a 2ª Guerra Mundial em detrimento aos aspectos daquele conflito) que percorrera toda a América central, Caribe e América do sul.

De acordo com a marinha norte-americana, esta armada tem como principais objetivos o caráter humanitário e não intimidar os países supostamente amigos nas ditas regiões do continente americano. No mês passado, o navio USS KEARSARGE, cuja bandeira era da 4ª frota, fez operações humanitárias no Caribe, em especial no Haiti.





Contudo, quando houve o anúncio da criação desta nova frota, a intelectualidade brasileira ficou dividida. Uns acreditavam que era uma afronta do governo norte-americano em criar uma nova armada para fornecer ‘ajuda humanitária” a países que são estados soberanos, eleitos pelo voto e que este acontecimento poderia ser o inicio de uma maior pressão sobre a América Latina.

Outros não deram muita importância, por acharem que a mesma América latina não é um risco eminente para a política externa norte-americana, já que há outros conflitos no mundo que pedem mais atenção e que levariam tempo para terminar.

Acredito que ambas as correntes estejam certas em pensar naquilo que acreditam, mas precisamos ter um olhar mais cético para os acontecimentos que estão a nossa volta. Não podemos deixar de pensar, que quando houver um novo amanhã, haverá um novo problema batendo nossa porta, em nossas fronteiras. A história é cíclica; ao longo de mais 5.000 anos, se repete...e se repete...e se repete até criar novas variáveis para velhas fórmulas.

Um bom exemplo disso é a lei NSS-2002 criada por George W. Bush filho após o ataque de 11 de setembro, que permitiu ao governo norte-americano iniciar em qualquer parte do globo conflitos armados a fim de eliminar qualquer suposta ameaça contra os Estados Unidos e levar a democracia a estes lugares. O que supostamente pode acontecer com os países da América Latina com a criação da 4ª frota. Basta um comando das pessoas certas dentro do poder americano para mudar de foco da política externa.




Outro fator que não podemos esquecer é o status quo, sempre o ponto principal de uma nação (seja de qualquer época). Como podemos notar nos dias atuais, o principal império está sofrendo problemas em suas estruturas. Assim, o status quo precisa ser mantido a qualquer custo para contra-balancear os acontecimentos nos últimos 7 anos na política externa e interna deste país. A criação de uma nova frota é uma destas formas para a dita manutenção.

Não seria errado pensar que, tal como fizeram os antigos impérios e principais nações do mundo ocidental do passado, isto é, atacar primeiro, perguntar depois, os Estados Unidos podem fazer o mesmo, ou melhor, já o fizeram (Japão, Afeganistão e Iraque) e podem repetir a dose. Portanto, a questão não é ser radical com os fatos existentes, mas sim lembrarmos da nossa história ocidental, nosso maior legado.

* Alexandre de Souza Costa é historiador.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Quem deveria "tomar bomba"?

Nos últimos 14 anos, o Ministério da Educação defendeu como uma das bases para a política de ensino a entrada de todas as crianças de 7 anos na escola. O Brasil chegou ao índice de 98%, bandeira levantada em nome de uma suposta eficiência de planejamento e de política pública consistente. A estatística foi repetida a esmo por aqueles que defendiam a postura governamental, apoiada em referenciais de organismos internacionais com o olho nas verbas destas mesmas instituições.

No final de novembro, um documento da UNESCO colocou em dúvida a eficácia de gestões marcadas pela quantidade de indivíduos nas unidades de ensino, mas que apenas engatinha quando necessita de ações que elevem a qualidade da educação brasileira. O Relatório Global de Monitoramento de Educação para Todos insere o Brasil entre os países com maiores índices de repetência. O país está à frente do Suriname, do Nepal e de 12 países africanos.

Traduzindo: as escolas brasileiras reprovam um em cada quatro alunos do 1º ano do Ensino Fundamental. O documento da UNESCO, que focalizou as atividades até o 5º ano (antiga quarta série), indica que 20% das crianças matriculadas abandonam a escola nesta fase. Apenas este dado coloca em xeque a pregação dogmática do Ministério da Educação, que se orgulha em dizer que as crianças estão na escola. Aprendendo o quê? Recebendo qual tratamento? Elas permanecem nas unidades de ensino?

No Índice de Desenvolvimento da Educação, o desempenho também levaria a política educacional para a recuperação de final de ano. O índice cruza informações sobre acesso e qualidade e classifica o Brasil na 80º colocação, quatro a menos se compararmos com a avaliação anterior.

Além disso, os dados da UNESCO indicam que a ladainha de todas as crianças na escola soa, no mínimo, discutível. O Brasil é o único país da América Latina com mais de 500 mil crianças sem estudar, mesmo patamar de países como Senegal e Iraque. Precisamente, 597 mil. A lista tem 17 nações. A UNESCO avaliou 125 países. No quesito reprovação no 1º ano, o Brasil ocupa a 116º posição. Em outras palavras, as escolas reprovam 27 em cada 100 estudantes. O índice nacional supera a média da África abaixo do Saara, que apresenta os piores indicadores sócio-econômicos do planeta.

Diante dos números, aparece a questão: de quem é a responsabilidade? É fácil apontar as vítimas: as crianças, incapazes de perceber as deficiências do sistema de ensino, mas com a sensação de culpa diante do dedo inquisidor de colegas e, por vezes, a própria família. Isso sem falar de professores e instituições escolares, que se eximem de vestir a carapuça de carrascos.

A discussão sobre o papel (ou o fracasso) da escola brasileira gravita em torno de questões pontuais, assim como os projetos (ou soluções milagrosas) propostos pelos gestores públicos. Quando não se partidariza o debate, percebe-se a aplicação de modelos estrangeiros que mais parecem versões franksteinianas do original.

Um exemplo é a Progressão Continuada, alvo de críticas excessivas por parte de educadores, mídia e políticos, que a associam à perpetuação do mau desempenho do aluno nas avaliações estaduais, nacionais e internacionais. Confunde-se o modelo com aprovação automática. Usam-se exemplos de crianças que chegam ao 9º ano (antiga 8º série) semi-analfabetas como símbolos do fracasso.

Na verdade, trata-se de uma forma oportunista de não entrar na falta de planejamento de políticas públicas de educação, o que inclui colocar a culpa no sistema, despersonalizado e generalizante. A Progressão é apenas mais um modelo copiado do exterior, de países que se desenvolveram no setor e viraram clichês de sucesso como Coréia do Sul, Espanha e Irlanda. Assim, os gestores ignoram a necessidade de infra-estrutura para a aplicação de projetos.

Neste sentido, há problemas de remuneração e capacitação de docentes, livros didáticos por vezes ultrapassados e preconceituosos, unidades escolares com atraso tecnológico e planos e metas com prazo de validade até a próxima eleição. É a visão de que a escola pública é de todos e não pertence a ninguém.

O triste deste cenário é que o problema não tem caráter financeiro, embora o país aplique menos do que o recomendado em relação ao Produto Interno Bruto (PIB). Falta continuidade e perspectiva de que organizar a educação significa um processo de longo prazo, de um quarto de século (pelo menos!), com reconhecimento discutível e capacidade de mensuração de resultados em parte abstrata. Não é somente uma questão de notas, boletins e passar de ano. A política educacional, ao reproduzir este olhar, mostra que não aprendeu o que tanto prega para as salas de aula.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

A História se repete – Afeganistão, o começo do fim

Por Alexandre de Souza Costa*


Os bárbaros estão às portas do império, dois grandes rios (Reno e Danúbio) os separam de sua barbárie e da dita civilidade ocidental da época. Os rios são transpostos, o império é invadido, atacado, os antigos valores culturais são assimilados pelos invasores e surgem novas leituras para estes valores. Roma está em chamas! O império cai!

Os Estados Unidos estão cercados por dois grandes oceanos (Atlântico e Pacifico), levas e mais levas de estrangeiros (imigrantes – vietnamitas, brasileiros, árabes e etc.) entram no país, muitos americanos os chamam de bárbaros (tal como os romanos chamavam os Vândalos, Godos e etc.). Novos valores estão sendo criados. A cultura é dinâmica, está sempre se adaptando às novas realidades de cada sociedade.

Na manhã do dia 11 de setembro de 2001, as bordas das fronteiras são invadidas, o coração do império é atacado. New York está em chamas! O império começa a ruir!

Na Roma Antiga, fortes eram criados ao longo de suas fronteiras para criar um perímetro defensível contra os bárbaros, nações eram invadidas em nome da manutenção da vida romana. Os fortes americanos estão ao longo de suas fronteiras internacionais (Kuwait, Colômbia, Japão, Alemanha etc.).

Uma represália contra os ataques de 11 de setembro era necessária. O Afeganistão (país que faz fronteira com o Irã e o Paquistão – países republicanos e islâmicos cuja forma de governo é centralizadora) é atacado, pois alojava a Al Qaeda (organização islâmica, que tinha declarado guerra santa contra aos Estados Unidos anos antes). Após seis anos e 1500 americanos mortos, o forte não está totalmente estabelecido, está frágil. As zonas de segurança não são totalmente seguras.

Vários muçulmanos (sunitas e xiitas) adentram ao país para fazer Jihad islâmica (guerra santa contra os inféis) contra os Estados Unidos e seus aliados. Paquistão e Irã são as portas de entrada para o conflito. Hoje, a dialética sobre este conflito e do Iraque são um dos assuntos mais importantes para a nova administração que assumirá o poder em janeiro de 2009 nos Estados Unidos.

Entretanto, a mesma dialética que é discutida nos meios intelectuais e/ou meios de segurança em todo o mundo, também foi discutida em 92 a.C., pelos senadores e militares romanos (intelectuais e segurança) quando após a derrota de um exército romano contra o império Parto (localizado no atual Irã, partes do Iraque e partes do Afeganistão) fez repensar a sua estratégia de conquistas naquela região e os fizeram ao longo dos próximos 200 anos.

Assim, tal como os romanos o fizeram há mais de 1800 anos, os americanos (com o seu novo presidente Obama) precisam analisar com cuidado qual será o próximo passo a escolher. Caso contrário, a história pode se repetir novamente, ou seja, 200 anos de conflitos, e as fundações para o inicio de declínio de um império. Ontem de Roma, hoje o Americano.

*Alexandre de Souza Costa é historiador.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Uma lágrima para Alfredo e Totó


Quando um homem abandona a própria terra e deixa para trás suas referências, as pessoas próximas e as lembranças, é possível que todo este passado seja enterrado a ponto de jamais deixar a sepultura, mesmo que o sujeito vivencie um instante de fraqueza? O que faz alguém largar uma vida e assumir uma nova identidade, ainda que mantenha o mesmo nome e local de nascimento?

Assisti, depois de muitos anos, pela segunda vez ao filme “Cinema Paradiso” (Itália/França, 1989), de Giuseppe Tornatore. O filme, em flashback a partir da memória de Salvatore, cineasta de sucesso em Roma, conta a relação entre o menino Totó (apelido de infância do protagonista) e Alfredo (Phillipe Noiret). Alfredo é projetista do único cinema da localidade de Giancaldo, em algum lugar da Itália no pós-Segunda Guerra.

"Cinema Paradiso" ganhou o Oscar de melhor estrangeiro e o Globo de Ouro em 1990, além do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes, no ano anterior. Trata-se de uma das melhores homenagens ao cinema, carta de amor à tela branca em um local escuro.
A sala de projeção é o pano de fundo para os personagens de um lugar onde ver filmes é a única atração além das missas. Há o padre que obriga Alfredo a cortar cenas de beijo. O sujeito que chora e decora diálogos inteiros das histórias. O espectador que vai ao cinema para dormir e roncar. É no cinema que acontecem as primeiras paixões, as discussões em família, as travessuras das crianças e os primeiros desejos pelo sexo oposto a partir da ficção.
Os relacionamentos sociais da pequena cidade que sobreviveu à guerra, mas que sofre para se reerguer diante da miséria econômica, auxiliam na compreensão de uma história sobre amizade. Totó, um menino de nove anos apaixonado por cinema, e Alfredo, o projetista com mais de 50, ranzinza, porém generoso.
"Cinema Paradiso" é um tributo ao contato humano, no sentido mais puro e descompromissado, se é possível localizarmos exceções. Em tempos de amizades líquidas, fugazes, o filme expõe como dois sujeitos – de faixas etárias distantes – conseguem ser cúmplices e se abrem para a troca de experiências e o diálogo, dispostos a compreender e respeitar o que o outro sente e tem a dizer.


A amizade entre os dois personagens não se comprova somente quando a sala de projeção se incendeia e o menino salva Alfredo. É a relação de confiança. É abdicar de uma posição em relação ao outro, sabendo que aquele necessita de apoio para não fracassar numa nova tarefa. Salvatore, por exemplo, herda a função de projetista até se encaminhar para o serviço militar no final da adolescência. O trabalho se dá por paixão, mas também pelo senso de coletividade, de continuidade ao que é comum a todos.
A cumplicidade de ambos é cristalina nas confidências, no apoio ao primeiro amor de Salvatore, aparentemente impossível diante de posições sociais diferentes. A garota, filha de um diretor de banco. Ele, um jovem que perdeu o pai na guerra e projetista daquela sala de cinema, resistente à “modernidade”.
A amizade precisa ser testada? Qual é o momento da generosidade absoluta? É preciso se anular para que o outro avance, atinja seus objetivos e concretize sonhos? Talvez isso se evidencie no ponto em que Salvatore – sem perspectivas econômicas e desiludido amorosamente – resolve seguir para Roma. É quando Alfredo se anula, assassina simbolicamente um filho adotado, mas determina que Totó jamais retorne àquela localidade, àquela terra que – embora ponto de origem – estaria amaldiçoada pelo fim em si mesma.
Duas tristes observações: o garoto Salvatore Cascio, que interpreta Totó quando criança, se tornou mais um caso de sucesso mirim da indústria cinematográfica que desapareceu com o peso da idade. Este foi seu único papel marcante. O ator Phillipe Noiret, também conhecido pela atuação em O Carteiro e O Poeta, faleceu de câncer ao 76 anos, em novembro de 2006. Noiret trabalhou em 125 filmes.


E um ponto a se notar: a trilha de Ennio Morricone e Andrea Morricone, completamente instrumental, é poesia em tempos de sofrimento. A música incidental – hoje clássica - nos conduz ao limite da fábula, no tom da ingenuidade (ou seria simplicidade?) entre os personagens.

Depois de quase 20 anos, "Cinema Paradiso" ainda é obra-prima pelo amor ao cinema, pela delicadeza sonora e, principalmente, pela crença na capacidade humana de, eventualmente, se interessar e se importar pelo outro, que merece as lágrimas ou a garganta que engole a seco de muitos espectadores.

sábado, 13 de dezembro de 2008

O espelho de Batman


A indicação póstuma do ator Heath Ledger para o Globo de Ouro – visto como a prévia do Oscar – deverá impulsionar as vendas de “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (Batman, The Dark Knight), filme recém-chegado ao mercado de DVD. O filme, evidentemente, se tornou mais visível para o público que não acompanha histórias em quadrinhos (HQs) em função do falecimento do ator em janeiro deste ano.

Dirigido por Christopher Nolan, O Cavaleiro das Trevas é, acima da tragédia pessoal do intérprete do Coringa, o melhor filme da franquia. A história, além de ser a que mais se aproxima do universo dos quadrinhos, consegue obter o maior grau de profundidade do herói e da relação doentia que ele mantém com seu maior adversário.

Batman, pela segunda vez interpretado por Christian Bale, talvez seja o mais humano dos sujeitos de capa e cueca por cima da calça, para utilizar um clichê do gênero. Uns diriam que pela ausência de super-poderes. Outros afirmariam que se deve ao fato de viver numa cidade onde a noite é personagem das tramas.



A impressão é que o homem-morcego manifesta nas próprias dúvidas e nas atitudes as contradições presentes no público que o acompanha e, por vezes, se espelha nele. É a ética própria de alguém que cria e segue regras próprias, mas não abdica do sistema existente. O comportamento indica um sujeito incapaz de lidar com o passado, de abstrair os momentos de ruptura – essencialmente a morte dos pais (o que pode gerar uma leitura metafórica) – no momento em que toma para si a tarefa de executar um trabalho com ausência quase total de reconhecimento.

No filme, o Coringa de Ledger é demasiado diferente daquele interpretado por Jack Nicholson, com alto teor de sarcasmo. O Coringa aparece em O Cavaleiro da Trevas na sua forma mais doentia, esquizóide. Há a ironia, porém acompanhada pela agressividade física, pela violência definitiva contra uma vítima qualquer, seja um dos comparsas, seja um cidadão de Gotham City.

O grande ponto do filme é a relação umbilical entre ambos. Batman e Coringa funcionam e sobrevivem como se estivessem diante de um espelho distorcido, como aqueles de antigos parques de diversões. Ali, você se vê de forma genuína, mas impura, passível de rejeição e atração. Combinadas, são paralisantes, entorpecentes.

Batman e Coringa, dentro de uma narrativa acelerada em um cenário sombrio como nas histórias impressas, manipulam os demais personagens com o objetivo de controlar e subjulgar um ao outro. A justificativa seria a justiça ou o oposto – dependendo de quem vê -, porém com a intenção eliminar aquilo que mais abomina em si. O lado incômodo de quem deseja ser completo e absoluto sobre o próprio comportamento.

O filme traz no elenco de apoio interpretações consistentes, como Morgan Freeman (Lucius Fox), Gary Odlman (comissário Jim Gordon) e Aaron Eckhart, excelente como promotor Harvey Dent, que se transforma em Duas Caras. É claro que tais personagens agem da forma habitual dos filmes blockbusters, no sentido maniqueísta de narrativa. Só que atendem ao que foi proposto: servir de escada para que Batman e Coringa conduzissem a trama.

A indicação de Heath Ledger soa como justa, apesar de sempre abrir a brecha para venenosa perspectiva de que a morte do ator facilitou o processo de reconhecimento. Um ator que ganhava maturidade cênica.



O que importa não são os prêmios que possam jorrar nos próximos meses ou o caminhão de dinheiro fruto da bilheteria de cinema, do mercado de DVD e da indústria dos licenciamentos. Vale a sensação de que a adaptação de HQs para o cinema – com filmes previstos até 2012 para vários personagens – adquire certa solidez, com a chance de abandonar os roteiros generalizantes e imbecilizantes.
No caso de “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, o herói e o vilão (ou anti-herói), papéis ocupados por ambos os personagens, retratam a necessidade do ser humano de se destruir e levar consigo aqueles que se aproximam, quaisquer que sejam os interesses. Batman e Coringa se respeitam, se detestam, se realimentam e, por isso, se refletem!

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OBS.: A proposta é escrever, eventualmente, sobre produtos culturais (filmes, livros, peças etc.) que sejam agradáveis e que me provocaram a reflexão. Não serão exatamente lançamentos. Por vezes, obras que mereçam ser novamente apreciadas.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Os trilhos e o borracheiro

Nota publicada na seção BLOG NEWS, no site do jornal Boqueirão (Santos/SP), em 12 de dezembro de 2008. www.boqnews.com

Um posto de gasolina na rua João Pessoa, no centro de Santos, arrumou uma nova forma de faturar no final de semana: o serviço improvisado de borracharia. O motivo é o número de veículos com pneus furados ou rasgados que vêm do porto. Na linha férrea que cruza a faixa portuária, antes da entrada para a rua João Pessoa, há um desnível entre os trilhos e os paralelepípedos. Os trilhos se transformaram em navalhas por causa das obras no local. No último final de semana, uma dúzia de carros procurou o posto, que fica a quatro quadras da faixa portuária. Um dos veículos teve dois pneus rasgados. A fraca iluminação colabora para que os motoristas não enxerguem o desnível na pista. Para quem vão reclamar?

As árvores sumiram!

Nota publicada na seção BLOG NEWS, no site do jornal Boqueirão (Santos/SP), em 12 de dezembro de 2008. www.boqnews.com

O que deveria ser um projeto de preservação ambiental se tornou um exemplo de falta de cidadania. Trinta e quatro árvores, entre quaresmeiras e ipês-amarelos, foram plantadas nas imediações de uma escola municipal, no Dique da Vila Gilda, em Santos. O objetivo era contribuir para uma mudança no cenário urbano em um bairro com problemas de infra-estrutura. Um mês depois, todas as árvores desapareceram, antes que a Prefeitura instalasse as grades de proteção. Algumas das quaresmeiras e ipês podem ser vistas em quintais do bairro.

Estacionamento ao ar livre

Nota publicada na seção BLOG NEWS, no site do jornal Boqueirão (Santos/SP) em 12 de dezembro de 2008. www.boqnews.com

Os guardadores de carro, presentes em diversos pontos da cidade, como constatou este jornal em reportagem de capa, administram seus negócios com visão empresarial. Muitos deles atuam de olho na concorrência, legalizada ou não. É o caso dos guardadores que ficam nos arredores dos clubes da Ponta da Praia, na orla de Santos. O preço é fixo: R$ 4,00, idêntico ao dos estacionamentos. Com a “vantagem” de não cobrar por hora. Em compensação, exigem pelo menos 50% do valor adiantado. É a garantia de sucesso do “negócio”.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O casarão teatral

Matéria publicada no jornal Boqueirão (Santos/SP), edição nº 714, de 22 a 28 de novembro de 2008, página 7. Obs.: os dois textos abaixo complementam esta reportagem.



“Vende-se casa com tudo, seus móveis, seus moradores, seus sentimentos.” Os dizeres da placa, entre duas portas de ferro de uma tradicional camisaria, soam como um delírio do proprietário do imóvel. A placa foi pendurada na única entrada de um casarão centenário, no número 99 da rua General Câmara, no Centro de Santos, acima da loja de camisas.

Ali, uma escadaria de 30 degraus íngremes, com corrimões tortos de madeira, leva o espectador aos 10 cômodos da residência (com ares de cortiço), onde acontece a peça “Nossa Vida como Ela É”, encenada pelo grupo Taetro de Teatro. Mas a encenação começa na rua, onde a proprietária do casarão, interpretada pela diretora Maria Tornatore, explica ao público – visto como comprador em potencial do imóvel - a dinâmica do espetáculo. São 30 pessoas em fila indiana na escuridão do centro em um sábado à noite, com chuva. O limite é de 40 pessoas por sessão.

A auxiliar de logística Val Matias de Sousa, de 31 anos, está entre as primeiras da fila. Ela, que veio ao local por achá-lo diferente, demonstra dúvida depois das explicações. “Como vou assistir à peça?”

Ao lado dela, a promotora de vendas Daniele Tavares Roener, de 27 anos, que acompanharia o espetáculo pela décima vez. “No começo, achava desorganizado. Depois, ficou dinâmico. Hoje, evito a cena do banheiro. É pesada e me causa mal-estar porque passei por uma experiência parecida.”

Sentir-se perdido ou chocado com algumas das cenas é normal dentro do casarão. São 50 atores, que se dividem em 40 cenas, quatro por cômodo. No total, 52 histórias, todas elaboradas pelo elenco. “Os casos e informações são factuais, vivências dos atores ou de parentes e amigos deles”, explica Tornatore.

O espetáculo é baseado no universo do dramaturgo Nelson Rodrigues. A proposta é lidar com o cotidiano do ser humano por meio de seus desejos, angústias, hipocrisias e contradições. Neste sentido, as cenas dependem dos espaços da casa, que se transforma em personagem. “As cenas se adaptam à cenografia do cômodo”, afirma a diretora.

As decisões e a organização do espaço são coletivas. Quarenta minutos antes do espetáculo, elenco e diretora definem a distribuição dos personagens pelos espaços do casarão. O imóvel foi cedido por Márcia Marques, amiga da diretora. Os atores pagaram a iluminação. Os móveis, de décadas diferentes, foram comprados de segunda mão, o que torna o ambiente envelhecido, pesado para os temas encenados.




O público não consegue assistir a todas as histórias. Em quase duas horas de peça, o espectador visita somente três cômodos. A peça é dividida em três partes. Em cada cômodo, acontecem quatro cenas que compõem uma etapa da apresentação. Depois de meia hora, a dona da casa toca uma sineta, o público troca de ambiente e as cenas são reapresentadas. Neste momento, atores e espectadores se misturam entre corredores e o hall principal.

Frango com quiabo - Em “Nossa Vida como Ela É”, o público interage com o elenco. Na cozinha, por exemplo, uma senhora, enquanto fala do caso amoroso que tem com o próprio filho, pede ajuda para escolher feijão e distribui balinhas mineiras. A tia dela, na cena seguinte, oferece frango com quiabo, verdura que servirá de metáfora para a seqüência em que um caipira vira amante da cunhada.

O ator Germano Dorna, com 44 anos de teatro, participa de quatro cenas. Ele interpreta, por exemplo, um morador alcoolizado que recebe uma notícia de suicídio e um personagem que reencontra o antigo amor 20 anos depois. È a primeira vez que Germano trabalha com o grupo e se surpreendeu em muitos aspectos. “A liberdade de criação é importante para muitos atores que tem a primeira experiência com teatro. Além disso, você tem que dizer toda uma vida em quatro minutos e meio de cena.”

A dinâmica da peça foi o que atraiu o ator. “Para o público, colocamos um verniz para não traumatizá-lo. Mas é uma muvuca”, explica Dorna, entre risos, antes da última passagem de texto.

Motel - A peça, que faturou cinco prêmios no Festival Santista de Teatro Amador (ver matéria abaixo), mistura dramaturgia e música. O ator Zellus Machado, como um trovador, participa de várias cenas acompanhado de um violão. As letras correspondem às ações do elenco. Como no banheiro, em que duas jovens mantém secretamente um relacionamento amoroso ao som de uma letra que enaltece a sedução feminina.

O espetáculo possui apenas um patrocinador, um motel, que auxiliou no material de divulgação. Nada mais sugestivo? “Eles se interessaram, mas se não houvesse patrocínio a peça sairia do mesmo jeito”, afirmou Maria Tornatore.

Após duas horas, a dona da casa agradece a visita dos supostos compradores do imóvel. No hall de entrada, elenco e público conversam como uma extensão da dramaturgia.

Entre agradecimentos e palavras calorosas, a auxiliar de logística Val Matias de Sousa prometeu voltar, assim como muitos dos espectadores. Ainda faltam sete cômodos para serem visitados e o testemunho de algumas dezenas de histórias incomuns da normalidade cotidiana.

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“Nossa Vida como Ela É” – sábados e domingos, às 20h30, até 7 de dezembro.
Rua General Câmara, 99 – Centro – Santos. Ingressos: R$ 20. Informações pelo telefone: 3028-6680Locais de venda: Loja Hapanui (Av. Pinheiro Machado, 845), em Santos, e na rua João Ramalho, 636 – São Vicente.

O quarto dos loucos

Matéria, em versão integral, publicada no jornal Boqueirão (Santos/SP), edição nº 714, de 22 a 28 de novembro de 2008, página 7.

Seis pessoas, cinco delas sentadas, aguardam mais uma seqüência de cenas. O ar denota curiosidade, pois o ambiente faz jus ao nome que recebeu. À direita, um beliche mal cuidado, com uma boneca de pano na parte de cima. A boneca, aliás, veste uma máscara que a envelhece. Um buquê e um vestido de noiva, em trapos, reforçam o clima de um passado doloroso. Cinco espelhos, com uma penteadeira entre eles, facilitam a visão de todos os ângulos do cômodo.

A penteadeira dá sinais dos personagens que ocuparão aquele espaço. Em cima dela, dois objetos. Uma caixa de música, sem a bailarina, virou porta-jóias. À esquerda, um livro entreaberto: “Longa Jornada Noite Adentro”, de Eugene O´Neill. No espelho, a frase escrita com batom: “Quem de mim eu sou?”.

Quando os seis espectadores – capacidade máxima do espaço – relaxam, entra um rapaz de aproximadamente 25 anos. Magérrimo e com cabelos compridos e cavanhaque, ele está nu. Um casal, na faixa dos 55 anos, se remexe nas cadeiras. Os mais jovens esboçam um sorriso amarelo.

O rapaz protagoniza uma das quatro cenas do Quarto dos Loucos, o único ambiente do casarão a ter um nome próprio. Ali, todos os personagens parecem estar de passagem. São fechados em si e conversam com os espectadores como se os ignorassem. É o caso da aeromoça, vítima de um relacionamento violento com o comandante da companhia em que trabalhava. Naquele quarto, os espectadores são os passageiros de um vôo e podem reproduzir as experiências dela numa viagem ao Rio de Janeiro.

Para a diretora Maria Tornatore, o Quarto dos Loucos simboliza o espetáculo. “Falamos dos desvios. É um grande diálogo sobre a moralidade atual.“

O rapaz nu, após embarcar numa viagem de conflitos com a mãe que o abandonou, sai vestido de mulher do Quarto dos Loucos. O público esboça uma conversa, mas uma nova cena – ao som de disco music - se inicia para colocar em risco as definições de normalidade destes espectadores.

"O palco não me diz respeito"

Matéria que pode ser lida também no site http://www.boqnews.com/

A diretora Maria Tornatore coleciona prêmios. Neste ano, no 50º Festival Santista de Teatro Amador, a peça “Nossa Vida como Ela É” ganhou em cinco categorias: melhor espetáculo adulto, direção, ator coadjuvante (Luciano Andrade), atriz coadjuvante (Luciana Sousa) e menção honrosa para o elenco. Além disso, Tornatore venceu na categoria melhor atriz em peça infantil (“O Segredo da Princesa Alumínia”).

Tornatore retornou aos festivais após briga com membros da classe teatral. “Voltei porque era uma data comemorativa. E fiquei feliz ao ver três pessoas que atuam em festivais internacionais dizerem que Santos tem agora estética teatral. No passado, outros disseram que a cidade não tinha nada.”

Com 35 anos de carreira, entre dança e teatro, ela é vista como uma diretora exigente no controle dos espetáculos. E crente no teatro amador como liberdade. Em entrevista, Maria Tornatore explicou porque busca novos espaços para o teatro que, segundo ela, deve lutar contra a redução da arte ao lucro.

Boqueirão: Você encenou o espetáculo Alemanha em um armazém do Porto de Santos. Trabalhou na Encenação da Chegada de Martim Afonso, em São Vicente. Agora, um casarão centenário no centro. Como o espaço funciona para você?
Maria Tornatore: Teatro não acontece sem espaço. E há o espaço da ficção, que só tem sentido quando é adequado. O palco tradicional, com distanciamento entre ator e platéia, não me diz mais respeito. Só trato quando obrigatório. Espetáculo é lado-a-lado, frente-a-frente. Não vejo mais público parado. Apenas se mexendo. Não volto mais para o palco tradicional. Não consigo.

Boqueirão: O casarão é ao mesmo tempo instalação e personagem?
Maria Tornatore: Exatamente. A casa é personagem quando trato dela como se fosse minha. Ela vive através das pessoas. A casa foi estudada como instalação. O público, além de sentir, também é ator. O público ajuda a vestir o personagem, escreve bilhete, bate à máquina de escrever, faz tudo isso aqui dentro.

Boqueirão: É a evolução do Grupo Taetro de Teatro, que completa 10 anos?
Maria Tornatore: É uma mudança. Para mim, tudo que você vê na rua está aqui dentro. O espetáculo é caótico, mas também cronometrado. A peça é um shopping center. É o que o público quer. Ele quer consumir. Então, vamos trazê-los para consumir. O problema é que as pessoas não conseguem ver a vitrine toda. O espectador pós-moderno não se encaixa no espetáculo tradicional. Trago a crítica a eles: - Não façam isso. Ou façam. Não há verdades. Os atores amadores querem estar na Indústria Cultural, mas não estão. Querem fazer sucesso, mas não fazem. Quero trabalhar com esses. Os que fazem sucesso estão perdidos.

Boqueirão: Você disse que existem atores de verdade e atores de mentira. Qual é a diferença entre eles?
Maria Tornatore: O ator de mentira vive na ficção da ficção. Ele acha que será alguém porque fez uma ficção. Vamos deixar claro. O ator que busca sucesso vive também uma vida de ficção. Não descobriu que a vida é fazer teatro de verdade. O teatro de R$ 10, de pobres. Essa idéia não pode ser comprada por um ator de verdade. Ele pode reconhecê-la. Tem que força e consciência para sobreviver. Arte é crítica da arte. A arte não pode cooperar com o sistema atual. Não gosto de leis de incentivo, de projetos encostados em secretarias. Isso acomoda. Que tenha um espectador, faço para ele.

domingo, 23 de novembro de 2008

O trem para Juquiá

O sobrado do canal 3 é o maior símbolo da família. Ali, aconteceram reuniões, festas, brigas e acordos de paz que formaram quatro gerações. Embora foco de relacionamentos, a casa quase centenária abrigou poucos para uma noite de sono. Isso deveria ser motivo de orgulho para aquele moleque de 13 anos, em plena década de 80. Mas será que um adolescente se importaria com isso? Com a cabeça povoada de dúvidas e de frágeis certezas, provavelmente não pensaria no assunto ou o consideraria irrelevante.

Passar a noite no andar de cima do sobrado não tirou o sono dele. Não havia expectativa alguma por causa daquela experiência noturna. A ansiedade dizia respeito ao que aconteceria na manhã seguinte. Na verdade, logo ao amanhecer. O medo de perder um compromisso que exigia pontualidade britânica.

O que o manteve acordado quase a noite toda era a viagem. Viajar de trem de Santos a Juquiá naquela manhã de sábado. O trem sairia às 7 horas, sem atrasos. Acordaria antes das seis, o que teria provocado a insônia. Mentira! Era a ansiedade de seguir por um caminho novo, desconhecido em absoluto, e por um transporte também inédito para ele.

O passageiro de primeira viagem seria acompanhado pelo primo Orlando Carlos, na época com cerca de 25 anos. A idéia era passar o final de semana no Vale do Ribeira, o que incluía a pousada na casa de parentes.

A estação de trem fascinava. Pessoas correndo, olhos no relógio, malas pesadas com o barulho de arrastadas, a cabine do bilheteiro retirada de um filme sobre o interior de um país qualquer. Depois, embarcar em dos vagões de passageiros. Os bancos pareciam réplicas daqueles que se vêem em lanchonetes norte-americanas do período rockabille. Mas o tempo colocava os assentos nos devidos lugares. Assim como os ingressos faziam com os passageiros.

O desgaste dos bancos cinzentos não trazia glamour ao passeio. Furos eram comuns em um tecido azulado (ou de tom cinza) desgastado, mas não significavam sintoma de desconforto. Irrelevante! O trajeto marcava pelas estações e pelos tipos humanos que transitavam pelos vagões. A lista incluía, claro, os funcionários uniformizados, de humores variados.

A estação do Samaritá, em São Vicente, lembrava uma cidade à parte. Dezenas de pessoas na plataforma, destinos múltiplos, sacolas de compras, rostos cansados de uma semana em que viajar de trem tornara-se uma obrigação a mais, capaz de exterminar a vontade de ver o que corre ao lado de fora.

Após duas horas, Itanhaém! Cidade que o moleque de 13 anos freqüentava duas, três vezes por mês. Mas que provocada novas impressões a partir dos trilhos do trem, que apontavam para outras perspectivas além da faixa de areia.

A partir daí, composições mais vazias e cenários de Mata Atlântica até o Vale do Ribeira. O primo mais velho – hoje não se tem certeza – apontava para as curiosidades do trajeto, fosse espaço urbano, fosse mata fechada. De alguma forma, mantinha-se distraído nas três horas distantes.

Ao meio-dia, quando encostou em Juquiá, o trem poderia ter moído seus passageiros de cansaço. Mas, nesta idade, o que seria uma viagem de cinco horas, naquelas circunstâncias. Tanto que ele não se lembra como voltou. Provavelmente de ônibus. Nunca se importou em perguntar para seu colega de viagem, pois crê no valor da travessia, e não em como se chega ao destino.

Hoje, com mais de 30 anos, o “garoto” observa a Estação da Cidadania, espremida por um hipermercado, perto do cruzamento das avenidas Francisco Glicério e Ana Costa, em Santos. A nostalgia ressuscita sentimentos ambíguos. A estação aguça o prazer de uma viagem idealizada pela memória e recriada pelo presente com elementos talvez distantes do real.

Por outro lado, também cutuca a melancolia de quem não poderá repeti-la, nem com as maravilhas da modernidade, lindas nos projetos e sempre prometidas pelo engravatados do poder. Viajar de trem, na memória do século passado!

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

O jaleco e o hamburger


Ariovaldo vestia todos os equipamentos de segurança para um trabalho de poucos riscos. Usava capacete branco, comum na construção civil, calça camuflada modelo militar, botas sete léguas, camisa escura e jaleco, além de luvas de borracha. Em silêncio, ele estava sozinho no combate. O exército de um homem só.

Embora veja como coletiva sua responsabilidade profissional, Ari prefere agir por si mesmo. Ele não consegue lutar em grupos. Prefere fazer o serviço isolado. Assim, o controla. Garante a eficiência, sem palpites de subordinados ou chefes! Não se importa com os comentários; afinal, comunica-se discretamente e transpira vergonha. Conversa? Apenas o necessário, pois o trabalho é infinitamente mais importante do que jogar palavras com qualquer um. Pode ser alguém que passa apressado. Pode ser alguém que trabalha por ali e o vê duas, três vezes por semana.

Depois de alguns segundos de reflexão, Ari se abaixou e recolheu um punhado de folhas. As luvas de borracha servem para isso: protegê-lo da água suja que se move lentamente na sarjeta. Abraçou, então, três caixas de papelão, que serviram para embalar cosméticos na farmácia em frente. Andou mais cinco metros e recolheu quatro caixotes de madeiras, daqueles que saíram do Ceagesp e encontraram destino final (até a chegada de Ari) no ponto de venda, um supermercado de bairro.

Aquele sujeito, de 30 anos, não é parte do mapa. Muda o relevo das imediações da Igreja da Pompéia, bairro nobre de Santos, mas não recebe o crédito. Para ele, crédito existe para quem tem os documentos do governo. Nem se parece com dinheiro. O trabalho dele é exatamente transformar em dinheiro mercadorias com ciclo encerrado na economia cotidiana, miúda até.

O jaleco atrai os olhares, mas afasta as aproximações curiosas. Preto, traz em verde fosforescente: agente ambiental. Esta é a missão que Ari impôs a si próprio. O dinheiro é conseqüência; o que o mantém animado é a mudança de cenário, a limpeza de um pedaço da praça, onde trabalhou por horas em mais um sábado de chuva.

Todo o material recolhido vai parar em uma carroça amarela, daquelas padronizadas e vistas – a desigualdade invisível – na rotina urbana. A carroça, organizada em compartimentos, é a casa e local de trabalho do agente ambiental. Ali, estão alimentos estocados, roupas de dormir, utensílios domésticos e os materiais que serão revendidos.

A chuva era contingência. Ari não diminuía o ritmo. O capacete, além da segurança, servia como improvisado guarda-chuva. Quando achou que o expediente terminara, com a carroça ajeitada, Ari esbarrou em um copo plástico à beira da calçada. E mais: outro copo boiava na água negra da sarjeta.

Ele balançou a cabeça negativamente e reclamou de que aquela tarefa parecia sem final. Foi à carroça, apanhou uma vassoura piaçava e varreu a água para o bueiro. Os copos foram parar na cestinha de lixo amarrada ao poste. Como alguém a três metros da cesta jogava dois copos no chão?

Ari não percebeu que era observado. Veio conversar com a objetividade dos diálogos de todo dia. E bombardeou com perguntas diretas:

- Eu peguei uma caixa de hambúrguer no lixo do supermercado. Venceu ontem. O que você acha? Tem problema?

Não tive tempo de responder. Ele se encarregou de completar o que poderia ser uma conversa:

- Olha, eu acho que não. Um dia só. Tenho a frigideira e o óleo. Você pode me ajudar a comprar o pão?

Com o dinheiro na mão, agradeceu e, quando ensaiava ir embora, notou que a praça precisava ser limpa novamente. O soldado verde não tinha munição para mudar a rotina da rua Euclides da Cunha. A produção de lixo era maior do que seu limite físico ou sua preocupação coletiva. Ao olhar para ele, fechado numa consciência ambiental particular, preferi não perguntar o porquê da vestimenta. Ele poderia se ofender diante de tamanha incompreensão.
Ilustração: DACOSTA

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

"Uma cidade sem conflitos"



Versão na íntegra de entrevista publicada no jornal Boqueirão, n.709, 18 a 24 de outubro de 2008, pág. 3.



A historiadora Vera Lúcia Nagib Bittencourt é uma torcedora fanática do debate político, seja em sala de aula ou em conversas informais. Ela reafirma – e não é necessário provocá-la - que uma cidade se faz pelo choque de idéias, de interesses.

Observadora perspicaz do processo eleitoral, Vera lamenta que Santos tenha feito a opção inversa. Para ela, os santistas colocaram a inevitável discussão de propostas e programas para debaixo do tapete. O reflexo seria a preferência por um político com características de gestor para conduzir o município. O discurso envelhecido da oposição também teria contribuído, de acordo com a historiadora, para a falsa calmaria na campanha eleitoral.

Vera é doutora em História Política pela Universidade de São Paulo (USP), onde participa de um grupo de pesquisa sobre a Formação do Estado e da Nação. Atua também como pesquisadora do Museu do Ipiranga, na capital paulista. Além disso, é professora da Universidade Católica de Santos (UNISANTOS), onde ministrou aulas de História Contemporânea e de História das Idéias Políticas e Econômicas. Atualmente, trabalha com formandos em História nos Trabalhos de Conclusão de Curso.

Na entrevista a seguir, a professora analisa o cenário político, principalmente em Santos, após a eleição, e as perspectivas para os próximos quatro anos.

Boqueirão: Qual a sua avaliação inicial do processo eleitoral, principalmente entre os prefeitos que ganharam autorização para governar por outros quatro anos?
Vera Lúcia Nagib Bittencourt: Fico pensando qual é o perfil destes candidatos que se reelegeram. A ênfase é em cima do gestor. Parece, para mim, a anti-política. É a idéia da tecnocracia. Há 15 anos, a tecnocracia provocava brotoeja. Mudou-se o nome para gestão e a coisa ficou palatável. A idéia não é mais conflito, dissenso, e sim eficiência, limpeza, suavidade. A política se esvazia no seu sentido.

Boqueirão: O prefeito João Paulo Tavares Papa se encaixa no papel de gestor?
Vera Bittencourt: Eu acho que sim. E ele investe nisso. Esse gestor tem que ser eficiente. O Lula dá esse exemplo, na segunda fase da política dele. O eleitor é bombardeado por essa idéia da gestão. Isso está dentro da escola, por exemplo. O discurso, em diferentes segmentos institucionais de políticas públicas, é de gestão. O que seria uma gestão eficiente? É aquela que não provoca atritos, sem ideologia. Isso significa provocar menos conflitos. De alguma forma, especialmente nas cidades médias e grandes, a competição está acirrada na vida privada das pessoas. Se algo aparece como um óleo nos trilhos, as pessoas vão buscar uma espécie de aconchego. O gestor é alguém que tem realizações e é capaz de fazer alianças. O que levou o Papa adiante foi esse arco de alianças partidárias em termos de tempo de televisão. A questão não é apenas dominar a televisão. É não permitir que outras propostas possam ser colocadas.

Boqueirão: Como fica então governar com 17 partidos, todos querendo um pedaço do bolo?
Vera Bittencourt: A questão não é o partido. É o gestor. Os partidos estão tão fragilizados que se ancoraram em uma pessoa, em um certo populismo. Trata-se de resolver problemas.

Boqueirão: E os partidos pequenos? Eles não podem exigir cargos, por exemplo?
Vera Bittencourt: Apenas se o prefeito deixar. A habilidade do Papa se revela não apenas na gestão, mas em trabalhar com o arco do desejo. Deixar sempre tenso o arco da promessa. Ele não bate a porta para ninguém, tudo parece possível. O segundo mandato era um atrativo. Os partidos pequenos não têm força. O que parece precipitado, ainda mais em política, é pensar na sucessão dele agora.

Boqueirão: O PT teve, na totalidade, cerca de 65 mil votos. Por quê?
Vera Bittencourt: Só 65 mil votos. A velha cidade polarizada é apenas uma coisa de momento, um embalo. A primeira eleição da Telma de Souza, em 1989, foi um momento único. Depois disso, nunca mais. Teve apenas o David Capistrano, com uma visão interessante de políticas públicas, mas polêmico, amado e odiado ao mesmo tempo, às vezes pela mesma pessoa.

Boqueirão: Por que o PT e o PSDB, dois grandes partidos nacionais, não têm bom desempenho na região? Por que os dois partidos são exceção à regra?
Vera Bittencourt: Os demais partidos, em cenário nacional, fazem alianças. A política em Santos é marcada pela tradição. Quando surge uma liderança, ela permanece até virar bagaço de laranja. Aqui, curiosamente, o PMDB elege Antonieta de Brito, em Guarujá, uma dissidente do PT, e o Papa, em Santos, além do Tércio Garcia, que tem um jeito de PMDB, mas está em outro partido. Outro ponto é que a liderança tenta gerar continuidade. Desta velha cepa e que continua dominando a brincadeira, é o ex-deputado Oswaldo Justo, mesmo morto. As idéias dele têm influência. Ele foi um político articulador, preparador de longo prazo. A eleição do Papa é um projeto do Justo. Olhe para trás, é aquele partido de Centrão, uma característica da cidade que parece extremamente confortável para o eleitor.



Boqueirão: Santos é uma cidade conservadora?
Vera Bittencourt: Esta história de passado envolve a cidade. A competição entre cidades, uma característica pós-moderna, faz com que elas busquem uma forma de distinção para atrair investimentos. Há algum tempo, Santos fez a opção pelo turismo. Até aparecer a história de Petrobrás e pré-sal, não se falava em outra coisa. Há três anos, as lideranças, inclusive universitárias, discutiam a indústria do turismo e seu desenvolvimento. Na distinção, o turismo com o Centro Histórico. Isso me parece uma grande criação na memória e no imaginário. São valores positivos no passado histórico. A cidade foi grande na época do café e isso a diferencia e nos torna aristocratas. Sem nenhum fundamento. Assim, a história da esquerda proletária vai se apagando. A grande habilidade do Papa é transformar todos em cidadãos, mas não a plebe. É a inclusão pelo consumo, e não pela política. Nossa inclusão seria pela história, pelo passado. Só teríamos cidadãos. A plebe é jogada fora, não existe, não aparece e não tem voz. O PT não conseguiu encontrar um tema para contestar essa visão. É tudo bonito, cenográfico. O símbolo da cidade é o bonde. Interessante e emblemático.

Boqueirão: A Câmara Municipal mudou oito das 17 cadeiras, mas continuam apenas três vereadores na oposição, mesmo cenário da primeira gestão do Papa. Qual é a sua avaliação?
Vera Bittencourt: De certa forma, as principais raposas ficaram. Mantovani Calejon, que não se elegeu, teve um problema partidário. Ele é personalista. Acho que tem razão quando fala da questão da saúde e do boato da morte. Esta imagem pegou nele.

Boqueirão: E o papel da ex-prefeita Telma de Souza?
Vera Bittencourt: A Telma foi a grande liderança de esquerda, a maior estrela. Ela gerou figuras políticas, mas que viveram um embate muito violento entre si.

Boqueirão: Isso explica o fato de Maria Lúcia Prandi e Mariângela Duarte terem morrido abraçadas na eleição?
Vera Bittencourt: As três.

Boqueirão: Você disse que Telma foi uma liderança de esquerda. E os 20 mil votos dela para vereadora? O que significam?
Vera Bittencourt: Significam um desgaste. Eu esperava mais.

Boqueirão: O que se comenta no meio político é que ela fará uma oposição ferrenha ao prefeito, pensando na sucessão em 2012. A senhora concorda?
Vera Bittencourt: Não concordo. Fico pensando, seriamente, se a Câmara vai dar a presidência para ela. Será um jogo pesado. Teoricamente, como a mais votada, ela teria direito à presidência. Não sabemos! A possibilidade maior é a continuidade do Marcus de Rosis por causa dos três vereadores do PMDB e dos três do PSDB. Telma está desgastada, esvaziada dentro do próprio partido. O PT parece muito envelhecido. Qual é o papel do Daniel Vasquez (professor universitário de 29 anos, candidato a vice na chapa de Maria Lúcia Prandi)? Quando terminar o mandato do Papa, as forças de situação terão Paulo Alexandre e Bruno Covas (deputados estaduais pelo PSDB). Todos vão precisar do prefeito. E a oposição?

Boqueirão: O deputado federal Beto Mansur (PP) é um possível sucessor?
Vera Bittencourt: Só se for por vaidade. O Beto é muito matreiro para entrar de cara na corrida. Ele vai pagar para ver até o final. Paulo Alexandre deve fazer o papel de coelho nesta corrida. Vamos ver se ele terá fôlego até 2012. Do outro lado, o velho confronto: Prandi, Telma e Fausto. Esta eleição foi brincadeirinha para o PT. O que a Mariângela Duarte (PSB) vai fazer? Em termos de propostas, ela foi quem mais investiu na renovação.

Boqueirão: Então por que Mariângela teve apenas 19 mil votos, menos do que Telma de Souza para vereadora? Houve voto útil para a Maria Lúcia Prandi, por causa das pesquisas eleitorais?
Vera Bittencourt: O eleitor que acredita na política busca certa coerência. A estratégia dela, ao buscar mais tempo na televisão, de se associar ao Democratas fez com que as pessoas que votariam por ideologia se desencantassem. Isso contribuiu de forma negativa. Os radicais não quiseram ouvi-la. E ninguém discute que ela não seja combativa e honesta. Cerca de 77% dos eleitores votaram no prefeito. Sem votos brancos e nulos, sobram 20% do eleitorado, que se pulverizou, se desencantou. A impressão, inclusive, é que essa parcela saiu da brincadeira. Isso não significa que os anseios, os sonhos, as possibilidades, as visões de mundo deixaram de existir. O que me incomoda é a idéia de que não haverá mais espaço para política. Não é assim! É deste momento em que tudo parece tão calmo, tão resolvido, que surgirão novos questionamentos.

Boqueirão: Das nove cidades da região, três serão governadas por prefeitas, embora Peruíbe seja um caso à parte, pois Milena Bargieri substituiu o pai, Gilson Bargieri, a três dias da eleição. Na história, apenas quatro prefeitas administraram cidades na Baixada. Por que mulheres foram eleitas em Guarujá e Cubatão? É uma questão de gênero ou de renovação?
Vera Bittencourt: É uma questão de acreditar que as mulheres possam ser mais íntegras do que os homens. Neste momento, a mulher se tornou mais competitiva na sociedade, mais dedicada, mais presa a valores. Cubatão e Guarujá viveram administrações conturbadas e problemáticas. São cidades-dormitórios, onde paira a coisa da corrupção. São duas mulheres com trajetória política. Nenhuma chegou de pára-quedas. Fizeram concessões e souberam negociar. Antonieta saiu do PT e foi para o PMDB, associando-se com a turma do falecido Maurici Mariano, o que garantiu respaldo com o centro em Guarujá. O filho dele está na Câmara. As duas passam a imagem de mulheres aguerridas, combativas e que seriam mais capazes do que os homens de fazer menos concessões. São pessoas tipicamente formadas pelo PT, pela militância. Conseguiram carimbar em si a integridade.

Boqueirão: Por que, no Legislativo, o predomínio masculino é quase absoluto, salvo exceções?
Vera Bittencourt: Não sei. Será que as mulheres acham que o Legislativo não resolve nada? O que cola é uma ação? Parei para pensar no que as mulheres disseram na campanha. Em Santos, muitas professoras. O sujeito acha que a vida pública o classifica para disputar um mandato. Muito discurso do tipo: vou cuidar da Câmara como cuido de minha casa. Faltou a voz dos aposentados. Essa população ainda não encontrou alguém que efetivamente os entusiasme. Na hora que conquistá-los, o quadro ficará mais conservador. Os políticos falam do aposentado como objeto, e não como protagonista social.

Boqueirão: Os candidatos que conseguiram trabalhar em nichos, em grupos sociais, como colônias de imigrantes ou entidades religiosas, não tiveram melhor desempenho na eleição para vereador? O vereador é um representante de nichos?
Vera Bittencourt: Se isso fosse verdade, seria lindo! O que seria uma Câmara? Um espaço de debate desses grupos! Penso que não emergiram lideranças de segmentos, como portuários e petroleiros. É retórica. O vereador Sadao Nakai (PSDB), por exemplo, é alguém para ser observado com respeito.

Boqueirão: Metade do eleitorado estava indeciso para vereador a 72 horas da votação. É apatia? O voto é decidido no micro-cosmos do eleitor?
Vera Bittencourt: As pessoas não se sentiram apáticas. Elas não querem o conflito. Os eleitores agiram para evitar o conflito, como se fosse possível. É retórica. Os conflitos estão aí. Não se conseguiu mostrar o conflito de forma positiva. As candidaturas de esquerda, neste sentido, fracassaram. Não existe vida política na cidade. Como vai aparecer alguém capaz de levar o eleitor à urna? Existe o sujeito localizado, na Assembléia de Deus, no clube Estrela de Ouro. A grande maioria não tinha quem eleger. Não tem política! Quanto mais pulverizado em número de partidos, é melhor para a ausência de debate e para quem está no poder. Desde que ele seja capaz de colar em si a imagem de gestor. O que é uma certa inocência! Grandes temas estão viciados. Educação, habitação, saúde, meio ambiente. Você trabalha só com o substantivo e ninguém fala nada. Talvez por isso o eleitor se volte para o universo pequenininho.

Boqueirão: Qual será o impacto desta eleição em 2010 e em 2012?
Vera Bittencourt: É uma chance para quem perdeu. Em 2010, será uma eleição plural, mas as pessoas estão cansadas disso. Os próximos dois anos serão densos em termos políticos. A política é móvel, volátil. Nada está calmo. Os acontecimentos significam novas estratégias, alertas e possibilidades. Não acredito que Mariângela Duarte, Maria Lúcia Prandi e Telma de Souza enfiem a viola no saco. O papel delas deverá ser de articuladoras, e não de cabeças de chapa. Espero que elas tenham a fineza de perceber isso. Há também novas lideranças chegando, como Paulo Alexandre Barbosa e Bruno Covas. De certa forma, Márcia Rosa e Antonieta de Brito são uma renovação, mais novas, menos marcadas por disputas internas dos próprios partidos.
Com colaboração de Luiz Nascimento.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Entre cigarros, a alma filosófica

No começo da década passada, o adolescente de 17 anos chegava à universidade. Olhando para trás, ele não entende que fora uma transição difícil, mas jamais jogaria fora as lembranças de ansiedade e de alívio associadas ao momento de orgulho próprio. As portas estavam livres para algo novo, mesmo que soubesse muito pouco sobre o futuro ou sobre a profissão escolhida.

A idéia era se manter aberto às novas experiências. O professor não seria um adversário, mas alguém que estaria ali por méritos, disposto a provocar e a abrir cabeças. Só que existe um limite entre o trivial e o choque.

Foi a aula de sexta-feira. Aquela aula, a partir das nove horas da noite, em que a maioria dos estudantes pensa várias vezes antes de freqüentar. E, se a freqüentam, o fazem por medo de represálias como notas, reprovação por faltas e provocações em corredores. Há ainda os alunos que temem o estigma, preocupam-se demais com a opinião alheia e a imagem que pode ficar deles no ambiente da faculdade.

A matéria também não ajudava: Filosofia, com livre ingresso no rol das “malditas”, mas que também gera o sorriso de canto de boca do professor ao final do curso, quando muitos alunos se arrependem não ter dado atenção suficiente à disciplina. Seria manifestação de rancor ou de mesquinharia com os garotos que o desprezaram três, quatro anos antes?

Não era o caso do professor de Filosofia. Ele provocou comentários de pé de ouvido assim que entrou em sala. Vestia uma camisa de botões bastante usada, para não dizer surrada, calças de uma marca de surf de sucesso na época, daquelas com diversos bolsos (aliás, hoje em moda!), um tênis modelo iate (sem cadarços). E fumava! O cigarro seguinte era aceso no anterior. Foi a primeira paulada na turma do politicamente correto.

Até o aluno que se via como mente aberta ficou ressabiado. Mas deixou a curiosidade ditar a permanência em aula. Até onde vai o professor? Não era, na verdade, uma primeira impressão cristalizada, pois faltava maturidade suficiente para uma atitude contestadora. Só que algo naquele professor era instigante, mesmo que ainda fosse uma avaliação da casca. O bendito professor sequer havia aberto a boca.

As palavras não chocaram. Serviram como uma carta de alforria para aqueles que desejavam o início do final de semana às nove da noite de sexta-feira. O professor colocou as regras na mesa. Ou melhor, atirou as regras no ventilador. Notas não existiriam. Provas, uma peça de ficção. Aulas, sempre dialogadas como o velho grego Sócrates adorava praticar. Conteúdo, temas contemporâneos pelo olhar da Filosofia. E as faltas em aula? Resposta: sujeitos adultos têm livre escolha.

O primeiro impulso, seguido pela maioria dos alunos, foi se retirar. Oba, folgas às sextas! Outra parte manteve-se em sala naquela noite por civilidade, talvez. Foi a única ocasião. A minoria resolveu ficar. Não davam dois times de futebol de salão. Aquele professor seria mesmo diferente ou fazia apenas jogo-de-cena para se livrar dos estudantes, enrolá-los, e também curtir o final de semana mais cedo? Os alunos teriam que pagar para ver!

E viram um curso fantástico! Era meia dúzia de pessoas que não perdiam um encontro. As aulas pareciam uma autópsia do ser humano, pela perspectiva do pensamento. Liberdade, coragem, esperança, justiça, arte, temas que aguçavam àqueles adolescentes a olhar para o mundo ao redor e pensar sobre ele.

O professor não durou muito no cargo. Apenas o suficiente para deixar cicatrizes, marcas sem dores que talvez fossem sentidas em relevo anos depois. Não se sabe exatamente porque ele saiu. Talvez tenha preferido se dedicar à arte, paixão que também funcionava como elo entre prazer e pagamento de contas.

Mais de 15 anos depois, um dos seis alunos virou professor. Não se arrisca a romper tantas regras como o filósofo. Talvez não tenha a coragem necessária, mas o admira por considerar que o conhecimento pode se aproximar de um grau elevado de pureza. A pureza (ou ingenuidade?) que permite compreender o pensamento como ato pragmático – e de crença - em um cenário onde tudo deve ter serventia. Só que nada disso teria valor se o aluno-agora-professor não conseguisse notar que o impacto das palavras do filósofo-fumante numa sala de aula dispensa prazo de validade.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Sujeira eleitoral

A eleição aconteceu há mais de 15 dias, mas parece que, em alguns pontos de Santos, há candidatos ainda em campanha. Ou será que preferiram ignorar os rastros da corrida eleitoral?

O fato é que muitas faixas e placas foram “esquecidas” nas ruas da cidade. Os autores da sujeira são de vários partidos. Até o Partido Verde, historicamente defensor de questões ambientais, tem faixas abandonadas na avenida Pedro Lessa.

O material de campanha, que pertence tanto a candidatos eleitos como derrotados, também pode ser visto na avenida Afonso Pena, nas proximidades da avenida Cor. Joaquim Montenegro (canal 6). Com a palavra, a Justiça Eleitoral.

http://www.boqnews.com/blognews.php

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Sucupira sem Odorico

“O Bem-amado” é um das obras mais profundas e populares da dramaturgia de Dias Gomes. Produzido na TV durante o regime militar, o texto funcionava como uma metáfora para o comportamento da classe política no Brasil, caracterizada pelo clientelismo, pelo nepotismo e, principalmente, pelas estratégias focalizadas na perpetuação do poder. Na novela (e depois seriado), as artimanhas passavam pela malandragem e pela demagogia.

Ao olhar para o resultado eleitoral em São Vicente, segundo maior colégio eleitoral do Litoral de São Paulo, é possível notar a reedição de diversas características do universo de Sucupira, governada por Odorico Paraguassu. Mas há uma diferença, que pode ser vista como substancial e, ao mesmo tempo, insuficiente para afetar o todo.

Paulo Gracindo interpretava o papel do prefeito matreiro, sempre envolvido em negociatas, com capacidade ilimitada de costurar articulações para permanecer no controle da política, além de exibir um caricato e competente carisma que iludia a população.

Aí está a diferença. Tércio Garcia não é Odorico Paraguassu. Trata-se de um técnico (engenheiro agrônomo de profissão) que virou prefeito. Tércio se encaixa no molde de político que agrada o eleitorado acomodado, pouco afeito aos embates naturais do processo democrático.

O prefeito reeleito de São Vicente trabalha como um gerente, que demonstra eficiência no andamento das coisas cotidianas, sem elevar o tom de voz ou sacudir a rotina previsível da cidade. Tércio não prima pelo carisma e pelo populismo, elementos inerentes nos políticos de velha guarda (o que não significa aposentados do poder; basta Brasília). Não são exatamente defeitos, mas implicam na imagem de alguém que ainda não conseguiu se livrar da sombra do mentor, o deputado federal Márcio França. Por isso, Tércio não foi reconhecido como articulador, somente como executor.

A vantagem do político-gerente é ter a personalidade associada à integridade. Escândalos podem explodir à volta, mas ele jamais sai chamuscado do incêndio. Esta postura garante uma separação adequada de outras esferas de poder durante uma eleição, ao mesmo tempo que assegura excelente relacionamento com as mesmas instituições.

Tércio Garcia foi reeleito com quase dois terços dos votos válidos. O resultado o legitima a permanecer como representante de um grupo que governa São Vicente há 12 anos. Outros quatro anos expõem as semelhanças com a cidade criada por Dias Gomes.

São Vicente, assim como Sucupira, não respira política. Apenas reproduz um falso espectro de debate; na verdade, vive a anti-política, marcada pela ausência completa de discordância.

A Câmara Municipal é o símbolo deste momento. Houve renovação no Poder Legislativo. Nove das 15 cadeiras terão novos “donos”. Veteranos como Carlos Gigliotti, Roberto Rocha e Nicolino Bozzela não conseguiram se reeleger. Ex-vereadores como Carlos Santiago também não tiveram votação suficiente para retornar ao cargo.

Os parceiros de dança mudaram, mas o ritmo da música permanece. A Câmara de São Vicente é caso único na Baixada Santista, já que a espécie “vereadores-de-oposição” foi extinta, com o aval das urnas. O quadro soa como um paradoxo, pois o eleitor demonstrou vontade de mudança, mas manteve o mesmo grupo no comando. O eleitor foi incapaz de perceber que permitia mais do mesmo? A hipótese é razoável, pois sabe-se que os candidatos são escolhidos pelo seu personalismo, e não por sua ligação partidária-ideológica.

Outro ponto importante na cidade que Dias Gomes não imaginou é a confirmação de dinastias. Além de fazer o sucessor e garantir sua reeleição, França foi competente em conduzir a campanha do filho Caio, de 20 anos, vereador mais votado da história do município. O garoto, estudante de terceiro ano de Direito, será o próximo presidente da Câmara? Ele tem o reconhecimento das urnas. Ele terá habilidade política ou será dependente do pai? O rapaz, em entrevista recente, falou até em Prefeitura no futuro.

O deputado estadual Luciano Batista, também do PSB, também deixou herdeiros no Legislativo, com a eleição do sobrinho Diogo Batista.

É uma pena que São Vicente tenha abdicado do embate de idéias. A cidade seguirá morna, com uma imagem construída sem contestação, e inviabilizada para outras formas de gestão. Valerá apenas a manutenção de um sistema de governo, sem a perspectiva, a curto e médio prazos, do surgimento de novas lideranças que não sejam as que rezam uma cartilha conhecida por todos.

O prefeito Tércio Garcia será o Bem-amado, no sentido de receber tapinhas nas costas de todos, como sintoma de afetividade circunstancial. De resto, São Vicente terá um gerente, mas não uma réplica de Odorico Paraguassu, papel a ser exercido por outras personalidades do local.

sábado, 11 de outubro de 2008

A herança de Papa

Após 12 anos de governo, em diversas funções, João Paulo Tavares Papa terá a legitimidade incontestável para aqueles que ocupam o poder: a maioria esmagadora nas urnas. Em 2004, ele foi reconhecido pelos eleitores, obviamente, mas assumiu a Prefeitura de uma cidade dividida, depois de vencer Telma de Souza por apenas 1771 votos.

Papa foi o prefeito escolhido por mais de 190 mil eleitores, recorde histórico na cidade de Santos. Experiente dentro do universo político, ele sabe o tamanho da responsabilidade que bate à porta do prédio da praça Mauá.

A história indica que a segunda gestão normalmente caminha em passos mais lentos, com certo relaxamento na máquina pública. A questão, no entanto, se refere às conseqüências da campanha eleitoral: como administrar a cidade com uma coligação de 17 partidos às costas?

Os velhos caciques ensinam que, em política, não existem amigos, mas interesses. Seria ingênuo pensar que os partidos, que navegam da extrema direita à esquerda (pelo menos no aspecto teórico), não cobrarão dividendos do poder na continuidade da gestão Papa. Todos deverão exigir sua parte no bolo, cada qual a sua maneira, seja pelo número de vereadores nas comissões da Câmara, seja por cargos nos escalões da Prefeitura.

Conforme o desgaste de relacionamento, o controle de Papa sobre os vereadores poderá ser líquido ou sólido. A Câmara deverá seguir em favor do prefeito. O Poder Legislativo aprovou o que quis nos últimos anos, contando com a ausência de fiscalização de setores da sociedade civil. Os vereadores, por exemplo, banalizaram a distribuição de medalhas e títulos em 2008.

A renovação do Legislativo será baixa, de acordo com as pesquisas eleitorais. Além das três cadeias desocupadas pelas desistências de Jama (PDT), Paulo Barbosa (PSDB) e Sueli Morgado (PT), apenas duas vagas deverão ser trocadas. Infelizmente, o continuísmo na Câmara indica a frágil preocupação do eleitor com este poder. Ou, na pior das hipóteses, a concordância com as ações dos vereadores.

João Paulo Tavares Papa terá à disposição orçamento superior a R$ 1 bilhão. As maiores fatias, até por força de lei, ficam para Educação e Saúde. Santos apresenta desempenho razoável nas avaliações educacionais. É a melhor cidade da região, mas a política educacional se tornou vidraça quando a Fundação Getúlio Vargas apontou em pesquisa a ineficiência de gastos no setor.

No caso da Saúde, o prefeito terá que rebolar com o número de atendimentos de pacientes oriundos de outras cidades, que sobrecarregam – por exemplo – a Santa Casa de Santos. Será que a solução envolve apenas construir outros hospitais ou é necessário sentar-se diante da mesa com outros prefeitos?

Este breve cenário representa a urgência de ações efetivas de todos os municípios no sentido de transformar a região metropolitana da Baixada Santista é algo além da ficção científica.

Santos vivencia mudanças aceleradas no desenho urbano. São 150 obras em andamento, desde casas sobrepostas até conjuntos de torres com mais de 20 andares. As construções estão espalhadas por toda a área insular, o que inclui Zona Noroeste e morros. Tais alterações no espaço da cidade implicam planejamento conjunto dentro da administração municipal, pois impactos ambientais serão nítidos. Haverá problemas maiores no trânsito, maior produção de lixo e esgoto, além de consumo de energia e água.

Será que o município se preparou para um suposto aumento populacional, em várias classes sociais, todas potencialmente consumidoras? E o que fazer com o deslocamento de moradores de camadas mais pobres?

Atualmente, o déficit habitacional é estimado em 15 mil moradias. O programa de governo prevê obras, mas com quais recursos? As últimas quatro gestões patinaram sobre o mesmo problema.

O que Papa pretenderá para si próprio em quatro anos? Como deseja ser lembrado? Se a trajetória histórica seguir sem surpresas, o prefeito será visto como um gerente, que passou ileso por escândalos e não atrapalhou os rumos da cidade. Talvez faça o sucessor.

Ou Papa sonha em ser visto como alguém que se planejou para um novo cenário, sem um legado de omissões diante de conseqüências econômicas, ambientais e sociais?

Com 17 partidos esfomeados, o prefeito sobreviverá às pressões mesquinhas do processo político? Neste universo, as tentações são múltiplas, e os erros destroem um governante nos detalhes, com o desmoronamento do conjunto da obra.