sábado, 15 de dezembro de 2007

A rosa sem nome

A fragilidade da garota se manifesta naquele corpo franzino, fruto de anos de desnutrição, o que denota uma aparência de idade inferior. A pobreza corre em paralelo a um lar desestruturado, que passa distante da rotina idealizada das propagandas de margarina na TV. O mundo em que vive é afastado pela geografia. O tempo, por sua vez, estacionou, desconectado da linha cronológica habitual da História.
À margem de uma sociedade conservadora, com instituições apodrecidas, a menina vive de pequenos furtos, o que dão a ela o rótulo de bandida, de um ser incomunicável e incapaz de conviver com aqueles que se julgam responsáveis pela propagação e controle da moral. Aliás, conjunto de valores que resistem ao tempo, agregados à força do poder político, econômico e religioso, regido por homens e sustentados pela violência institucionalizada ou acobertada pela cegueira proposital de quem dá as ordens.
A garota rodeia não apenas um, mas vários castelos com ares medievais, nos quais se processam esta alimentação moral, além – evidentemente – da distribuição de benesses sociais. São favores para aqueles que, embora sustentem o poder vigente, pouco teriam a acrescentar na construção das relações humanas, seja por inexperiência, seja por insensibilidade. Ela, adolescente pobre e invisível, sobrevive pelas beiradas dos altos muros das fortalezas, trafega pelos porões do castelo, conhece os meandros de uma estrutura imponente e acessível para poucos iluminados e escolhidos pelas autoridades, cujos títulos foram concedidos por homens, mas representam o divino, o dogmático.
Esta sociedade que ignora a garota-marginal é inquisitória. Pune transgressores, questionadores, visionários, adversários ou os que apenas servem como gado. É o mecanismo de perpetuação do artificialismo da moral e dos bons costumes. O julgamento é sumário, inquestionável: o réu está atrelado à culpa, independente das regras constituídas pelo poder superior, distante, omisso e lento para acompanhar o que acontece nos seus monastérios longínquos.
A garota, fragilizada fisicamente, deteriorada na própria auto-estima, caiu na teia do processo inquisitório. Julgamento foi peça ficcional. A punição foi rápida e, certamente, com danos definitivos para a ré-vítima.
No entanto, a menina de corpo franzino, marginal e miserável não foi “curada” de seus males na fogueira acesa antes do amanhecer. Seu destino foi uma cela de prisão, dividida com 20 homens por 24 dias. As labaredas não eram extintas assim que o corpo se queimava. As chamas se realimentavam a cada refeição, ressuscitavam a cada violência contra um corpo feminino que insistia em permanecer incomodando o sistema medieval.
O espetáculo, assim como a fogueira no meio da aldeia, atraia a atenção silenciosa dos moradores de Abaetetuba, cidade interiorana do norte do Brasil. O público comenta o destino daquela infeliz a boca pequena, como gado que se mantém satisfeito com a ração diária. Como no universo totalitário, as autoridades jamais têm ou podem assumir responsabilidades. A culpa é da adolescente de 15 anos, pecadora por ser menor, transgressora por ter retardamento mental, segundo o ex-delegado-geral do Pará. A responsabilidade dela se eleva se considerarmos que a adolescente provocava sexualmente os presos, conforme a constatação da corregedora da Polícia Civil do Pará, Liane Paulino, afastada da investigação por essa “conclusão civilizada”.
Diante de reações de um mundo com o mínimo de vergonha de si mesmo, o poder distante dá os primeiros passos. Começam as investigações e as declarações indignadas contra atitudes incompatíveis com o século XXI. A Corregedoria de Comarcas do Interior do Pará, por exemplo, pediu o afastamento da juíza Clarice Andrade, dona da caneta que manteve L. presa. A juíza poderá enfrentar processo administrativo com outros dois funcionários. O pedido ainda passará por votação no Tribunal de Justiça.
A perspectiva é que a solução ocorra apenas no primeiro trimestre de 2008, após o recesso do Poder Judiciário. Se for afastada, a juíza não poderá exercer suas funções, mas continuará recebendo os salários. Assim como os inquisidores quando perderam o controle, a juíza deixou a cidade. Entrou em merecidas férias.
A analogia com o livro “O nome da Rosa”, que gerou um filme estrelado por Sean Connery, é apenas uma alegoria para expor uma sociedade que apresenta inúmeras semelhanças com o cenário construído pelo intelectual italiano Umberto Eco. O Brasil, institucionalizado –mesmo que a distância - a partir da chegada dos portugueses, não viveu a Idade Média, pelo menos na cronologia dos historiadores. Porém, valores, comportamentos e ações desprezam as medidas padronizadas de tempo, definidas pelos detentores do poder e adotadas pelo homem comum.
Parte da sociedade brasileira, por meio daqueles que a representam, demonstra como é possível retornar ao universo medieval naquilo que ele possui de mais atrasado e perverso, originando o sugestivo nome de Idade das Trevas. Abaetetuba não é uma aldeia isolada e com um caso exclusivo. O país está impregnado de Rosas e de endereços onde a selvageria é sinônimo de cotidiano.

Nenhum comentário: