segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Por que os professores faltam? (publicado na versão impressa)

Independente do projeto de lei que pretendia punir professores faltosos, o debate político expôs as feridas da educação pública em Santos e em outras cidades da Baixada Santista. O conflito nos levou a uma pergunta, tão óbvia quanto distante da discussão entre educadores e políticos: por que os professores faltam tanto?
A questão aqui não é gastar tinta com “professores” que vivem para usar brechas do sistema em benefício próprio. Estes desconhecem o sentido do serviço público e – não importa quais modificações sejam feitas – agirão sempre de má-fé. Não se trata de legislação, mas de caráter falho. Fazem parte do processo, mas são causa e conseqüência de má gestão pública e de falta de cidadania.
As ausências do professorado simbolizam a imagem de uma categoria que se mostra desgastada, pressionada e vítima da falta de continuidade nas políticas públicas de educação no Brasil. A maioria esmagadora dos docentes têm mais de um emprego. Isso os obriga a jornadas duplas ou triplas, sempre com média de 35 alunos por sala, muitos deles desinteressados e envolvidos por um modelo genérico de escola autoritária, desconectada com a realidade e promotora da cultura do não-estudo. Os estudantes, dependendo do lugar, também são vítimas de lares mal estruturados e de um sistema político-econômico que promove a disparidade de renda.
No sistema público, faltam profissionais da educação. Muitos professores preferem atuar em outras atividades por causa dos baixos salários. Santos, por exemplo, convocou 300 professores este ano. Pouco mais da metade atendeu à convocação. Muitos optaram por trabalhar em outras cidades da região, como Cubatão, com salários mais atraentes.
As faltas no serviço público não são um problema apenas dos professores. A situação é difícil também nas equipes pedagógicas. Qualquer estudante de Pedagogia sabe que a equipe pode erguer ou afundar a escola, ainda mais em tempos de pregação da autonomia nas unidades de ensino. Pregação teórica, pois as políticas públicas continuam uniformes e pouco flexíveis, desconsiderando diferenças geográficas, culturais e sócio-econômicas.
Muitos coordenadores pedagógicos e assistentes de direção, por exemplo, possuem empregos em outras cidades ou em outras redes. Como podem cumprir oito horas de jornada de trabalho numa cidade e repetir a carga – mesmo que parcial - em outro endereço? Aulas de madrugada? O resultado é a flexibilidade informal, como revezamentos e compensações, entre os educadores.
A solução não requer mágica ou política partidária em torno do tema. Os próprios políticos nos indicam os caminhos a cada quatro anos nos palanques eletrônicos. A continuidade de políticas públicas e melhores condições de trabalho são apontadas como elementos primordiais para evitar o nomadismo entre os educadores e o abandono (literal ou motivacional) da docência. Isso passa por escolas com infra-estrutura sólida, envolvendo alunos, comunidade e educadores. E, acima de tudo, cobranças por desempenho. O profissionalismo deve partir de quem obedece, mas também de quem coordena e toma decisões.
De qualquer modo, pode-se esperar um desgaste político, há dez meses das eleições municipais, para a equipe que administra Santos. Pelo menos, junto à boa parte dos professores. Se esta possibilidade não existisse, o projeto não teria nascido morto. O que não surpreende também é o Poder Público manter a postura de lavar as mãos e responsabilizar os professores pelos problemas da educação. É como se um único ator fosse o culpado pelo fracasso do espetáculo.

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