sábado, 22 de dezembro de 2007

O exército de mortos-vivos

A cultura pop os imortalizou. Os zumbis, para retornar a um tempo não tão distante, apareciam nos velhos filmes do estúdio Hammer, sem sanguinolência ou efeitos especiais. Nos anos 70, esses personagens alçaram a ícone do mundo do horror o diretor George Romero, produtor de uma trilogia clássica para os fãs. Na música, em meados da década seguinte, os mortos-vivos foram tema do clip Thriller, o mais famoso do cantor norte-americano Michael Jackson.
Os zumbis representam, em linhas gerais, o temor do homem diante da morte, do desconhecido e de seus semelhantes. Significam também o lado primitivo, não-civilizado, que expurga a raiva e a fúria diante do próximo. Ser um morto-vivo expõe ainda a ausência completa de humanidade, de vida em um corpo inanimado, incapaz de reações racionais; apenas um elemento errante, infantilizado, que vaga sem perspectivas, sem traços culturais e sociais. Um ser que deveria permanecer nas sombras, absolutamente invisível em função do terror e da repulsa que provoca naqueles que um dia foram seus iguais.
Estou acostumado a me deparar com zumbis. Infelizmente, pelo papel deles no horror do espetáculo social contemporâneo. Podemos especular sobre inúmeras razões que causam estes encontros, desde teorias filosóficas, passando por reflexões psicológicas, até sociologia de banheiro. A maioria delas, no entanto, é incapaz de humanizá-los, tirando-os da condição de seres “inexistentes”.
Esta semana, um destes indivíduos ocasionou reações adversas, deixando as sombras e interferindo no mundo fora da caverna. Tinha cerca de 18 anos, descalço, sujo, vestindo camiseta e bermuda; jazia ali, numa calçada, agarrado a uma sacola plástica com os pertences mais recentes.
O sono ultrapassava o limite do aceitável. Afinal, eram 11 horas da manhã e como um morto-vivo poderia descansar em frente a um dos principais centros de compras de Santos??? Os vivos o ignoravam, levantavam a cabeça, projetavam o nariz no horizonte. Porém, a indiferença não apaga o cenário, apenas inverte a figura e o fundo.
Percebia-se, entre aqueles que não podiam caminhar dali, crescente desconforto e paralisia em interagir com o elemento que “estragava” o retrato de paz e tranqüilidade. Os longos minutos acabaram quando dois policiais militares, protetores do patrimônio material, chegaram para verificar o que se passava naquele mar de prosperidade. Os vivos, neste momento, subiram nos caixotes da indignação. Como um morto-vivo poderia permanecer ali, em plena luz do dia? Já não bastam a sombra e a escuridão?
Os servidores públicos, protegidos por suas fardas e armas, resolveram com eficiência o problema. Sem se preocupar em conhecer o dialeto zumbi, abriram mão do diálogo e retiraram a mancha do cenário bucólico de Natal. Com os olhos inchados de quem havia ressuscitado à força, o rapaz cumpriu seu papel e retornou ao obscuro. O irônico é que, naquele dia de sol, a sombra mais próxima era o centro de compras. Ali permaneceu por mais alguns minutos, em busca de diálogo e de alguma visibilidade. Em ambos os casos, fracassou. Cumpriu mais uma vez o que a sociedade esperava dele naquele momento.
O fato é que não se trata de uma exceção. Na cidade da qualidade de vida, “terra da caridade e da liberdade”, os zumbis hoje compõem um exército descentralizado, que flutua desde os bairros mais pobres até as vilas mais ricas. E insistem em aparecer à luz. Nos semáforos, lutam contra as películas protetoras dos vidros dos automóveis. Nas portas de supermercados e shoppings, valem menos que as sacolas plásticas. Nos bancos, são vigias informais nas camas de pedra durante a madrugada.
Como não estão vivos, pelo menos na ótica do consumismo e da aparência, seguem sem cidadania. Não interferem no processo político e não constam nas estatísticas otimistas da economia. Pouco rendem para as políticas públicas. Mas se multiplicam. Hoje, são centenas de indivíduos. A precisão numérica não importa. O que interessa é a presença deles, reflexo de um modelo absolutamente desigual, gerenciado por seres legitimados pela maioria, mas que enxergam somente aquele buraquinho que todos temos na barriga. Os legitimados e a maioria. O adolescente enxotado e seus clones nas ruas da cidade me fazem lembrar o escritor Joseph Conrad. As palavras do autor de “O Coração das Trevas”, foram imortalizadas por Marlon Brando, o militar norte-americano desertor no filme Apocalipse Now. Resignado com a capacidade humana de eliminar e subjulgar o outro por prazer, o personagem apenas murmura: “O horror. Oh, o horror!”. No caso dos zumbis que vagam pelas ruas de cidade, o horror assusta quem? Os vivos ou os mortos? Cuidado, é cada vez mais provável que você esbarre num deles na próxima esquina.

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