segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Renan e os espelhos

A sociedade do espetáculo é implacável. Fragmenta, relativiza, consome. Com ares novelescos, segue a fritura do presidente do Senado Federal, Renan Calheiros, que resiste em praça pública, com a provável consciência de que se transformou em um cadáver político. Mas ele sabe que, no caso do espetáculo político-midiático, ser um corpo em decomposição não significa a morte. A ressurreição de vários defuntos, que inclusive vagam pelo próprio Congresso Nacional, não nos deixa mentir.
O processo novelístico pelo qual passa a política profissional não é novo. Basta assistir a alguns minutos de CPIs para se perceber como a tecla rec de uma câmera faz milagres com o comportamento humano, transformando tímidos em extrovertidos, sangues de barata em leões. Nesse show artificial, choca o elevado grau de hipocrisia também daqueles que consomem o circo.
A partir dos discursos, que transitam da indignação ao conformismo, quase acreditei no grau único deste processo político, se não fosse por uma série de equívocos de ordem ética, cultural e histórica. A vida brasileira, desde o nascimento no século XVI, caminha de braços dados com a corrupção, a confusão entre o público e o privado, a ineficiência no gerenciamento de recursos públicos e as relações de favorecimento entre várias esferas de poder.
Somos um país eternamente em compasso de espera. O Estado veio antes da nação. Capitanias hereditárias? Derrama? Família Real no Rio? 50 anos em cinco? Estas fases se caracterizaram por costuras políticas distantes da transparência. É preciso uma pitada de história, mesmo que superficial, para que se lembre da necessidade de se compreender sucessão de fatos como processos. A corrupção está no sangue de parte da história brasileira. E esta história é feita, administrada e vivenciada por homens. Nem sempre políticos profissionais.
O quadro atual me remete ao conceito do paradoxo brasileiro, elaborado pelo filósofo e economista Eduardo Gianetti no livro “Vícios privados, benefícios públicos” (Cia.das Letras). Trata-se de um comportamento recorrente na sociedade brasileira. Os mais pessimistas crêem em traço cultural. Em momentos de crise, ocorre a omissão de responsabilidade. Os culpados são os outros. Como a Lei de Gerson (coitado, pagou o pato pela campanha publicitária de cigarro): o brasileiro quer levar vantagem em tudo. Nesta hora, os outros são os brasileiros. Quem julga, exercita seu moralismo e se distancia.
Em outras palavras, a ética pública não se dissocia da ética privada. Os eleitores que escolheram políticos com a ficha suja o fizeram com base em quais critérios? Com ares de indignação ou de complacência? Não é a mesma sociedade do “jeitinho brasileiro” ou do “você sabe com quem está falando”? Vale a pergunta do jornalista Bob Fernandes feita durante o programa Provocações, da TV Cultura:
- Quantos brasileiros prefeririam pagar os R$ 700 de uma multa de trânsito, se pudessem pagar R$ 50 para o guarda???
É óbvio que o senador deve ser punido pelos crimes que cometeu e, por conseqüência, ser enterrado politicamente com todas as pompas. Mas será o único cadáver do cemitério? E seus “reflexos” dentro e fora do Congresso? Serão os coveiros do ritual fúnebre? Omitir-se, abster-se ou transferir responsabilidade é um deslize ético equiparável ao do autor da transgressão. Independente se há uma câmera ligada.

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