segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Quando o cinema expõe feridas

O filme Tropa de Elite, com estréia antecipada para este final de semana, é um fenômeno. Não se trata de juízo de valor ou de gosto pessoal, mas de entender que a produção, além de expor feridas sociais, se transformou em um caso inédito da mídia brasileira.
A exposição de um Brasil paralelo, não-oficial, não está limitada às ações guerrilheiras dos policiais do Bope ao longo da trama. O filme dá nitidez e dimensão ao impacto que a economia informal (para escrever de forma educada) causa na sociedade brasileira. É a obra cinematográfica mais vista no país em 2007. As estimativas da imprensa falam em 3,5 milhões de espectadores antes da chegada às salas de cinema.
A distribuição paralela nos mostra como popularizar recursos tecnológicos colabora com a sensação de que é cada vez mais difícil controlar as relações de consumo. O público se comporta de maneira mais interativa, indo de encontro à mensagem e subvertendo a relação tradicional, que o colocava numa condição absolutamente passiva diante dos produtos de massa.
Por outro lado, a circulação do filme nos indica a presença mínima e ineficaz dos mecanismos de controle sobre os direitos da produção cultural. Cerca de 58% dos DVDs vendidos no Brasil, atualmente, são piratas. Isso implica – de certa forma, pois não consiste na única causa – numa sobrecarga sobre o preço final das chamadas mercadorias oficiais. Estabelece-se o círculo vicioso. Um país que gasta pouco com cultura mal mexe no bolso quando se trata de fiscalização.
Mais do que as facilidades de acesso ao conteúdo, o frenesi em torno de Tropa de Elite, obviamente, se deve ao impacto da trama e da forma como é contada. O filme levanta o tapete do cinismo, onde seguia inerte a podridão das políticas de segurança pública. Seria injusto afirmar que a história representa somente a visão do diretor José Padilha. Seria considerá-lo esquizofrênico. Colocando no contexto, quem produziu o documentário Ônibus 174, que caminha na direção oposta e foi acusado de apologia à marginalidade?
No entanto, o que me incomoda mais são as reações públicas diante de Tropa de Elite. O apresentador Luciano Huck, por exemplo, publicou artigo no jornal Folha de S.Paulo no último dia 1º, no qual contava que havia sido assaltado nos Jardins e propunha como solução necessária para reduzir a violência a presença do Bope, com capitão Nascimento (personagem de Wagner Moura) incluído no pacote de limpeza. No caso, o único fato de a voz descontente ter sido de um apresentador é a ressonância. Ele fala para milhões e muitos podem acreditar cegamente em seu discurso moralista. Infelizmente, tal postura encontra eco em uma parcela considerável da sociedade, incapaz de enxergar mais fundo do que uma peça de ficção, baseada em fatos reais.
O filme é acusado de apologia à violência. Ele difere dos blockbusters americanos que inundam as salas de cinema e as locadoras de DVD? Ou das imagens da guerra no Iraque exibidas em horário nobre? É evidente que um modelo não justifica o outro, mas o paradoxo se apresenta com transparência. A violência de Tropa de Elite incomoda – ou faz vibrar como uma torcida na arena – porque se senta ao nosso lado, se posiciona diante do pára-brisa do carro no semáforo ou está de prontidão para atender fregueses na porta das badaladas casas noturnas.
Por isso, uma tropa disposta a matar quem estraga o cenário paradisíaco ganha adeptos (e não são poucos), que sustentam a tese de que a única forma de extinguir a violência é aplicar o mesmo remédio. Como se fosse possível definir com clareza quem é o inimigo, sua hierarquia e seus postos de combate. O inimigo está entranhado em nós. Ele não é independente, invisível (embora rezemos para que fosse) e distante. Divide os mesmos espaços, sonha com as mesmas marcas, mas – óbvio – em condições e status diferentes.
O filme caminha pelas vias do documentário e, com isso, consegue – pelo primor técnico – nos passar a pluralidade que, em muitas ocasiões, as produções jornalísticas pecam. Esta pluralidade ultrapassa o maniqueísmo polícia-bandido e coloca um terceiro ingrediente no processo social: os financiadores do tráfico. Não houve invenção da roda; apenas rompeu-se o cordão de hipocrisia que cerca o assunto. Ou seja: o inimigo está ao lado, interagindo e interferindo no cotidiano, mesmo nas sombras. Tropa de Elite, independente da ideologia de quem o vê, não permite que nenhum espectador passe ileso ao conteúdo. As balas respingam no público que – dos reacionários aos anárquicos – não consegue ficar indiferente. O filme cumpre a função que sempre se deve desejar de uma obra de arte: gerar a reflexão, incomodar o homem diante do mundo que o cerca e fazê-lo reagir diante disso. É, acima de tudo, o maior mérito da produção. É pena que, no mundo dos espectadores, valha mais o campo da retórica.

2 comentários:

Eduardo Henrique disse...

O longa “Tropa de Elite” (Brasil, José Padilha, 2007) tem o caminho parecido com o livro “O Estrangeiro” (Argélia, Albert Camuns, 1942). O mesmo golpe – chamado por muitos de o Golpe de Mersault – que o escritor franco-argelino pregou na literatura mundial, Padilha consegui projetar para a personagem central do longa.
No livro, Mersault, desprendido de sentimentos, mata um homem, é condenado à morte. O mais chocante na obra foram os argumentos utilizados para a condenação da personagem. A genialidade da escrita de Camus distorce nosso campo de percepção. O que acontece? Ao fechar o livro temos a sensação de que Mersault é inocente, vítima do sistema. Ele passa de algoz a herói.
No filme, o Capital Nascimento enfrenta problemas em seu relacionamento conjugal, em certos momentos demonstra não ter sentimento algum, e prega “cumprir seu papel na sociedade”. Acontece que, ao término do filme, o capital do BOPE é transformado em herói, com base nos mesmos desvios de argumentos do livro de Camus.
Algo está errado? Ou a nossa capacidade em julgar valores mudou?

Marcus Vinicius disse...

Eduardo,

Muito obrigado pelo comentário. Ainda não havia visto este paralelo com o livro de Camus. Sólido, criativo. Realmente algo está errado. A capacidade de julgar realmente passa por alterações. Será que estamos diante de um novo conjunto de valores, pautado e/ou potencializado por instituições como a mídia?? Abração.