segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Futebol: negócio para quem manda, paixão para quem obedece

Apenas o torcedor mais ingênuo viu alguma novidade no circo montado pela mídia esta semana, para o previsível anúncio do Brasil como sede da Copa do Mundo de 2014. Com a candidatura única, a tragédia estava anunciada. Tragédia porque o fardo é muito maior do que os dirigentes esportivos ousam declamar. Por parte da imprensa, houve todos os tipos de exageros, desde detalhes das 18 cidades que podem sediar jogos até a especulação em torno do Estádio do Maracanã como palco de uma final, o que reeditaria 1950. Seria a chance de nos redimirmos daquela derrota por 2 a 1 para o Uruguai?
Devemos prestar muita atenção, nos próximos sete anos, no monstro que se encontra por trás da retórica ufanista e do clamor pela “pátria de chuteiras”. O evento é um grande negócio, na casa de muitos bilhões de dólares, mas essa fatia do bolo será dividida por poucos glutões. De acordo com o que foi exposto até agora, a maior parte do dinheiro virá do nosso bolso. Portanto, prepare-se para pagar pela Copa do Mundo, financiada em 84 meses, o que não dá direito a ingressos em setores privilegiados.
Para que a festa aconteça, mudanças estruturais são uma questão de emergência, tanto nas praças esportivas como nos setores periféricos ao jogo de futebol, mas também de suma importância para a garantia de uma competição de nível internacional.
O país tem um prazo curto para aumentar a rede hoteleira, melhorar o sistema de transporte – o que envolve reformas em aeroportos e aperfeiçoamento das redes de ônibus e metrô -, tornar eficiente o sistema de saúde, fornecer a sensação de segurança para moradores e turistas, entre outras tarefas. Se todos os itens são discutidos há vários governos como doenças estruturais do Brasil, será que a Confederação Brasileira de Futebol, governos federal e estaduais, além de investidores privados, conseguirão arrumar a casa até 2014?
Se observamos o passado recente, a imagem vista pelo retrovisor é nebulosa, cheia de pontos escuros. O Pan-americano do Rio de Janeiro expôs todas as feridas sociais de uma grande cidade brasileira, colocou na vitrine o caminhar de um paquiderme chamado Estado e não nos trouxe uma imagem de eficiência das empresas privadas. A obra custou várias vezes o valor previsto. Muitas promessas ficaram, para variar, no projeto, como uma nova malha de transporte e a repaginação do sistema de trânsito.
Espaços esportivos construídos para o evento foram desativados ou serão adaptados para outras atividades. E as modalidades esportivas ditas amadoras? Desenvolveram-se? O número de praticantes, clubes e praças cresceu? O futebol feminino, por exemplo, ganhou múltiplos apoios? A Copa Brasil, que começou na última semana, não vale como argumento, pois terá a duração de pouco mais de um mês e é fruto de um resultado mais expressivo, o vice-campeonato mundial. Neste caso, virou um fato político e foi utilizado como tal. A modalidade já possui uma Liga Nacional, vencida em 2007 pelo Santos Futebol Clube. É ... o time da Vila é campeão brasileiro de futebol feminino.
O discurso ufanista praticado por políticos e representantes da mídia (a maior empresa do setor é visceralmente interessada no sucesso da Copa em função de contratos de transmissão e de publicidade) casa com a ausência de vozes críticas, salvo exceções que muitas vezes sequer conseguem subir no caixote e obter ressonância na multidão.
Bilhões de dólares saíram dos cofres para o Pan-americano e pouco deste montante foi investigado. A corrupção é a marca das grandes obras brasileiras. Se um projeto custa muito mais do que o previsto, qualquer pessoa com o mínimo de decência e/ou profissionalismo investigaria. Na teoria.
Desta maneira, a festa esportiva no Rio de Janeiro não serviu para comprovar que um evento de porte internacional seja capaz de reduzir desigualdades sociais ou resolver obstáculos na infra-estrutura. O que se viu foi a construção de um circo, a execução do espetáculo com a casa cheia e o posterior recolhimento da lona. Quem seria o palhaço no picadeiro? E o bilheteiro?
São 18 cidades brigando pelo poder de sediar jogos da Copa do Mundo. É uma disputa em que os bastidores valem mais do que a entrada em campo. Haverá transparência nos critérios de escolha? Como será manejado o dinheiro? E quem vai fiscalizar? Lembre-se, leitor, de que parte destes recursos financeiros são de ordem pública, oriundos de um modelo de gestão incapaz de solucionar as dificuldades mais elementares.
Rejeitar a idéia de uma Copa do Mundo por aqui não significa virar as costas para o patriotismo. Pelo contrário. Representa avaliar, indignar-se e, como brasileiro, perceber que nos encontramos diante de promessas demais, perspectivas de menos, vindas de grupos que não primam pela credibilidade. Contudo, recebem um cheque em branco, sem limite para gastar, e sabem explorar com eficiência o ingênuo exercício do patriotismo em competições esportivas. Triste a nação que deposita esperanças quase cegas em ídolos de chuteiras. A sorte é que faltam sete anos para que a partida termine.

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